quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Bazar da Gratidão


A dor do outro

Um dia desses, eu estava prestes a reclamar de minhas dores e perseguições, quando a Divina Providência me presenteou com o saber do sofrimento de alguém muito próximo, fato que eu nem imaginava. Foi o remédio de que eu precisava.

Arrependido, compreendi que o egoísmo é capaz de deixar o mundo ao nosso redor nos encher de autopiedade, sentimento que nos impede de ver a dor do outro. Espero que não aconteça isso com você!

Reze por mim!

Com carinho e orações,

Seu irmão, Ricardo Sá

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Manhãs de Formação de Teologia do Corpo

A partir do mês que vem, em todos os primeiros sábados do mês durante um ano, a Gratidão promove encontros sobre a Teologia do Corpo!

Serão momentos de partilha, formação, oração e adoração!

Para quem não sabe, a Teologia do Corpo (TdC) é o nome dado por Papa João Paulo II como título de trabalho para suas primeiras catequeses, ministradas entre 1979 e 1984. Nesse período ele meditou sobre o amor humano em seus vários aspectos: a relação do homem e da mulher, o significado esponsal do corpo humano, a natureza e missão da família, o matrimônio, o celibato, a luta espiritual do coração do homem, a linguagem profética do corpo humano, o amor conjugal, entre outros.

Nós convidamos você para conhecer essa teologia sobre o amor humano conosco!

Os encontros serão aos primeiros sábados do mês, em nossa casa (Rua 12, Chácara 143/1, Casa 05 - Vicente Pires, de 08:30 às 12:00.

As inscrições são R$10,00 e podem ser feitas através deste email. É só nos enviar uma mensagem com seu nome e telefone, escrevendo no Assunto: TdC

Abaixo, os temas das primeiras formações:

 07/set: Introdução à TdC
 12/out: O Plano Original de Deus para o amor humano (As palavras de Cristo e a "Solidão Original")
 02/nov: O Plano Original de Deus para o amor humano ("Nudez Original" e "Unidade Original")
 07/dez: A entrada do pecado no mundo (As palavras de Cristo e o Adultério no Coração)
  
Esperamos por você!


Jovem atéia se converteu após ler Bento XVI e São Tomás de Aquino




Megan Hodder é inglesa, tem 21 anos e é uma leitora voraz. Desde o Pentecostes deste ano, também é católica, recém-batizada.

Há cerca de dois ou três anos ninguém poderia prever isto, porque Megan não recebeu absolutamente nenhuma educação cristã e lia com assiduidade e gosto autores de divulgação do “novo ateísmo”: Dawkins, Harris, Hitchens…

Mas tudo mudou quando decidiu que para poder zombar da Igreja Católica, grande símbolo da irracionalidade, devia ler diretamente Bento XVI. E aí foi onde começou uma conversão marcada pela lógica, razão e pensamento.

CRESCER DEPOIS DO 11 DE SETEMBRO

“Fui educada sem religião, e tinha 8 anos quando sucedeu o atentado das Torres Gêmeas no dia 11 de setembro de 2001. A religião era irrelevante em minha vida pessoal, e durante meus anos de estudo a religião só proporcionava um fundo de notícias sobre violência e extremismo”, assinala em seu testemunho no “The Catholic Herald”.

Megan é representante de uma geração jovem que cresceu lendo autores como Dawkins, Harris e Hitchens, que com um estilo informativo afirmam que a religião é a causa de quase todos os males do mundo, que o terrorismo islâmico é a prova e que o cristianismo é quase a mesma coisa.

Mas desde a adolescência, Megan entendeu que tinha que ler algo mais do que apenas os polemistas do novo ateísmo. Decidiu se instruir sobre “os mais distintos inimigos da razão, os católicos”, para refutá-los em sua ignorância.

UMA FÉ COMPATÍVEL COM A RAZÃO

A primeira coisa que fez foi ler o famoso discurso em Ratisbona de Bento XVI, que defendia a razão frente à fé cega. A maneira com a qual a BBC em línguas asiáticas difundiu este discurso nos países islâmicos causou grandes manifestações anticristãs, com violência e vítimas fatais.

Também leu o livro mais curto que pôde encontrar de Bento XVI: “Sobre a consciência” (tradução livre da obra).

“Esperava e desejava mostrar sua irracionalidade e preconceitos, para justificar meu ateísmo. Mas em contrapartida, um Deus que era o Logos se apresentou a mim; não um ditador sobrenatural que esmaga a razão humana; mas a fonte da bondade e verdade objetivas, que expressa a Si mesmo, para a qual se orienta nossa razão, e onde alcança sua plenitude; uma entidade que não controla nossa moral de maneira robótica, mas que é a fonte da nossa percepção moral…”.

O fato é que aquilo que Megan encontrava não era o que os autores do “novo ateísmo” diziam. “Era   a buscar mais o catolicismo, a reexaminar com um olhar mais crítico alguns problemas que tinha com o ateísmo”.
uma percepção da fé mais humana, sutil e, sim, crível, do que esperava. Não me conduziu a uma epifania espiritual dramática, mas me animou

OS PROBLEMAS DA MORAL SEM DEUS

Megan entendia que uma moralidade sem Deus tem duas tendências problemáticas, ou é tão subjetiva que chega a ser absurda, ou tenta seguir uma suposta lógica estreita que leva a resultados tão desumanizantes que causa repugnância.

As teorias éticas que melhor superavam estes problemas, entendeu, eram teístas, e depois de ler Bento XVI o teísmo não parecia tão absurdo.

DAWKINS NÃO ENTENDEU TOMÁS DE AQUINO

Outro problema presente no “novo ateísmo” é a metafísica. “Logo percebi que confiar nos novos ateus para ter argumentos contra a existência de Deus foi um erro, porque Dawkins, por exemplo, trata de maneira desdenhosa Santo Tomás de Aquino em “Deus, um delírio”, Dawkins só aborda um resumo das Cinco Vias e sem entender aquilo que apresentam. Foquei-me nas ideias tomistas e aristotélicas, e vi que apresentavam uma explicação válida do mundo natural, uma explicação que os filósofos ateus não souberam atacar de maneira coerente”, escreve Megan.

Megan buscou incoerências e inconsistências na fé católica, mas teve que admitir que uma vez aceitando sua estrutura e conceitos básicos, tudo se encaixa “com uma velocidade impressionante”.

O GRANDE OBSTÁCULO: A MORAL SEXUAL

A exigente moral sexual católica começava a ter sentido quando era abordada a partir dos textos da “Teologia do Corpo” de João Paulo II. George Weigel deu a ideia fundamental em “Cartas a um jovem católico”, quando disse: “as coisas importam”. No catolicismo o sexo importa, o corpo importa, a vida e a fertilidade importam, o que se faz é importante, tem consequências e expressa algo.

“A moral sexual católica não é uma lista de proibições, como pintam por aí”, escreve Megan em seu blog. “É o reconhecimento de que existe uma harmonia entre Deus e a humanidade que está incrustada no mundo material, que se manifesta de uma forma assombrosa e aguda na complementaridade entre o homem e a mulher e seu chamado a ser uma só carne”.

Megan, que cresceu numa Inglaterra de liberalismo sexual absoluto, assinala “o fato de que os métodos contraceptivos são responsáveis por quase dois terços dos abortos do Reino Unido, e as doenças sexualmente transmissíveis alcançam níveis altos, históricos”, para indicar o fracasso do “sexo-sem-consequências”.

Sobre o feminismo, constata que a cultura pansexual converteu a mulher num mero objeto, não num ser humano com igual dignidade, e que desconhece a realidade da fertilidade feminina e seus ritmos naturais.

A “Teologia do Corpo” e a moral sexual católica oferecem assim “um modelo de relações humanas que é seguro, duradouro e comprometido, encima de bases sólidas, ordenado para a unidade e a vida. O ideal católico das relações humanas é um desafio exigente, mas um desafio rumo à excelência, para ser fiéis às nossas necessidades reais e às de nossos companheiros”.

É A VONTADE, NÃO O INTELECTO

Megan se deu conta de que os livros levavam-na à fé, mas que, apesar disso,“a fé não é um exercício intelectual, um assentir a certas proposições, mas um ato radical da vontade, que gera uma mudança total na pessoa”. Percebeu como eram os católicos que conhecia, gostou e deu o passo.

No domingo de Pentecostes de 2013, Megan foi batizada e ingressou, assim, na Igreja Católica.

Hoje assinala que “para cada ateu confesso e embasado, existe outro sem nenhuma experiência pessoal com a religião, nem interesse no debate, que simplesmente se deixa levar pela corrente cultural. Espero ser um exemplo, ainda que seja pequeno, da atuação do catolicismo, em uma era que às vezes parece ser tão oposta a ele de maneira indiscutível”.

Fonte: Religión em Libertad (religionenlibertad.com)

Tradução do Espanhol: Reparatoris

Retiro Mulheres Segundo o Coração de Deus

"Ao meditar sobre o mistério bíblico da mulher, resumido em Maria, desejo que todas as mulheres se encontrem a si mesmas e a própria vocação nela, e em toda a Igreja se aprofunde e se compreenda melhor o papel tão grande e importante da mulher". Papa Francisco, Cf Ângelus de 15/08/13.

Em atenção ao desejo do Papa e da Igreja, de que a mulher compreenda seu papel e sua importância, nós promoveremos o Retiro Mulheres Segundo o Coração de Deus, um retiro de cura interior só para mulheres.

Será nos dias 4, 5 e 6 de outubro, com a presença de Maria Francisca, fundadora da Comunidade Oásis, uma comunidade de Caxias do Sul - RS.

O encontro será em nossa sede (Rua 12, Chácara 143/1, Casa 05 - Vicente Pires).

Mais informações e inscrições: comunidadegratidao@gmail.com ou 38794959/84321033

#Compartilhe e ajude a #Gratidão a divulgar seus eventos!



segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Palavras do Papa





O Papa Francisco recitou a Oração mariana do Angelus neste domingo, 25 de agosto, desde a janela do apartamento Pontifício, diante de milhares de fiéis e turistas reunidos na Praça São Pedro. Antes de lançar um novo apelo pela paz na Síria, o Santo Padre falou sobre a salvação eterna e o convite de Jesus para passarmos pela porta estreita.

“Esforçai-vos para entrar pela porta estreita”, respondeu Jesus a alguém que lhe interpelou no caminho para Jerusalém sobre quantos seriam salvos. “O Senhor – observou o Papa – indica assim qual é o caminho da salvação. Mas qual é a porta que devemos entrar?”.

O Papa explicou que a imagem da porta aparece várias vezes no Evangelho “e evoca aquela da casa, do lar doméstico, onde encontramos segurança, amor, calor. Jesus nos diz que existe uma porta que nos faz entrar para a família de Deus, no calor da casa de Deus, da comunhão com Ele.

“Esta porta é o próprio Jesus. Ele é a porta. Ele é a passagem para a salvação. Ele nos conduz ao Pai. E a porta, que é Jesus, nunca está fechada, está sempre aberta a todos, sem distinção, sem exclusão, sem privilégios. Porque vocês sabem, Jesus não exclui ninguém. Alguém entre vocês poderia me dizer: ‘Mas, Padre, eu sou excluído porque sou um grande pecador: fiz coisas erradas, fiz tantas coisas erradas, na vida...’. Não. Você não está excluído” Precisamente por isto és o preferido, porque Jesus prefere o pecador, sempre. Para perdoá-lo, para amá-lo...Jesus está te esperando para abraçar-te, para perdoar-te..Não tenha medo. Ele te espera. Tenha ânimo, tenha coragem para entrar na sua porta”.

Ângelus de 25 de agosto de 2013
 
“Todos – acrescentou o Papa - são convidados a passar por esta porta, passar pela porta da fé, entrar na sua vida e deixá-Lo entrar na nossa vida, para que a transforme, renove, dê a ela alegria plena e duradoura”.

Após, Francisco observou que “passamos diante de tantas portas que nos convidam a entrar e prometem uma felicidade que dura um instante, se esgota em si mesma e não tem futuro”. E exortou:

“Gostaria de dizer com força: não tenhamos medo de passar pela porta da fé em Jesus, de deixá-lo entrar sempre mais na nossa vida, de sairmos dos nossos egoísmos, dos nossos fechamentos, das nossas indiferenças em relação aos outros. Porque Jesus ilumina a nossa vida com uma luz que não se apaga nunca. Não é um fogo de artifício, não é um flash, não! É uma luz tranquila que dura para sempre e nos dá paz. Assim é a luz que encontramos se entramos pela porta de Jesus”.

O Papa explica então, que “a porta de Jesus é uma porta estreita, não porque seja uma sala de tortura, mas porque exige abrir o nosso coração a Ele, reconhecermo-nos pecadores, necessitados de sua salvação, do seu perdão, do seu amor, de ter a humildade em acolher a sua misericórdia e de nos deixar renovar por Ele”, e recorda que “Jesus no Evangelho nos diz que ser cristão não é ter uma ‘etiqueta’”:

“E eu pergunto a vocês: vocês são cristãos de etiqueta ou de verdade? Mas cada um de nós responda dentro de si mesmo, eh...? Nunca cristãos de etiqueta! Mas cristãos de verdade, de coração. Ser cristão é viver e testemunhar a fé na oração, nas obras de caridade, na promoção da justiça, no fazer o bem. Pela porta estreita que é Cristo deve passar toda a nossa vida”.

A Virgem Maria, Porta do Céu, o Papa Francisco pediu “que nos ajude a atravessar a porta da fé, a deixar que o seu Filho transforme a nossa existência como transformou a sua para levar a todos a alegrai do Evangelho”.

Na saudação final aos diversos grupos, incluindo um grupo vindo de São Paulo, o Santo Padre recordou que para muitos este período marca o fim do período de férias de verão, desejando “um retorno sereno aos compromissos da vida cotidiana, olhando o futuro com esperança”. (JE)


Texto proveniente da página http://pt.radiovaticana.va/news/2013/08/25/n%C3%A3o_devemos_ser_crist%C3%A3os_de_etiqueta._mas_crist%C3%A3os_de_verdade,_de/bra-722639
do site da Rádio Vaticano

Trinta e cinco anos atrás, João Paulo I era eleito Papa



Nesta segunda-feira, 26 de agosto, decorre o 35º aniversário de eleição à Sé de Pedro de João Paulo I.
Nascido em Canale d’Agordo, norte da Itália, em 17 de outubro de 1912, no momento da eleição o Cardeal Albino Luciani era Patriarca de Veneza e assumiu o nome de João Paulo I, homenageando seus dois predecessores: João XXIII e Paulo VI, que falecera 20 dias antes.

O seu pontificado foi um dos mais breves da história: depois de apenas 33 dias o “Papa do sorriso” foi encontrado morto em sua cama, na manhã de 28 de setembro. Em seu único discurso Urbi et Orbi, João Paulo I reiterou à Igreja que seu principal dever era a evangelização e a exortou a prosseguir no esforço do ecumenismo.

Em discurso no dia 10 de setembro, dirigindo-se a representantes da imprensa internacional, pediu que “se aproximassem mais de seus semelhantes, intuindo de perto seu desejo de justiça, de paz, de concórdia e solidariedade, em prol de um mundo mais justo e humano”.

Nas quatro audiências gerais que concedeu, o Papa “humilde” enfrentou temas como a humildade, a fé, a esperança e a caridade, falando com um estilo pessoal do qual emergiu sua missão pastoral e catequética.

João Paulo I também é lembrado como o “Papa catequista”, ou “Papa pároco do mundo”, nomes que salientam seu amor pela catequese vista como paixão comunicativa a serviço da verdade cristã e não como uma forma reduzida de evangelização.
(CM)

Texto proveniente da página http://pt.radiovaticana.va/news/2013/08/26/trinta_e_cinco_anos_atr%C3%A1s,_jo%C3%A3o_paulo_i_era_eleito_papa/bra-722773 do site da Rádio Vaticano

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Entrevista de Dom Waldemar sobre o Papa Francisco e a Jornada Mundial da Juventude



Mais do que um nome que pode renovar a Igreja Católica, o papa Francisco é um sinal profético. Essa é a visão de dom Waldemar Passini Dalbello, bispo auxiliar de Goiânia, que esteve presente à Jornada Mundial da Juventude, evento realizado no Rio de Janeiro e que, por uma semana, mostrou ao mundo a cara e o coração do novo pontífice. Como os profetas bíblicos, o argentino Jorge Mario Bergoglio também convence, converte e arrasta por seu próprio exemplo: se veste de maneira simples, recusa regalias, dá fim a mordomias e se comunica como homem comum. Não foi à toa, portanto, que escolheu como nome de papa, aquele que também batizou Francisco, o santo nascido em Assis e que pregou a simplicidade e o despojamento — a começar da Santa Sé.

Aos 47 anos, o braço direito do arcebispo de Goiânia, dom Washington Cruz, está ao lado dele há mais de três anos, período em que também chegou a exercer o cargo de administrador apostólico de Brasília — uma espécie de arcebispo interino — até a nomeação de dom Sérgio da Rocha como sucessor de dom João Braz de Avis, que se tornou cardeal. Dom Waldemar acredita que a Igreja latino-americana sai à frente naquilo que pede o novo papa: ir ao encontro dos fiéis. “Em tudo o que disse Francisco há um ‘ide’ inequívoco, repetido insistentemente, em vários momentos. Ele não se desviou em instante algum dessa mensagem. A nova evangelização é um bem para a Igreja, sim; mas da mesma forma, é um bem para a sociedade e para a humanidade”, resume o bispo auxiliar.

Nesta entrevista ao Jornal Opção, concedida em seu gabinete na Cúria Metropolitana, dom Waldemar também consegue atravessar com êxito a ponte que liga os valores da Igreja e as demandas do mundo, em questões espinhosas, polêmicas clássicas, como o aborto, o uso de contraceptivos e o sacerdócio de mulheres.

Elder Dias — As palavras atraem, mas os exemplos arrastam. Al­guns dizem que essa frase é de São Francisco de Assis [a versão mais consistente dá conta de que seja um provérbio latino de origem desconhecida]. Parece ser nisso que o papa Francisco acredita. Ele já publicou uma encíclica, herdada provavelmente de Bento XVI, mas está atraindo as pessoas mais com suas ações do que as palavras dos documentos papais?
Vivemos um papado recente e é até surpreendente que Fran­cisco tenha uma encíclica já publicada, que só poderia ser nessas circunstâncias — uma “herança”, de um texto já trabalhado. Nós, da Igreja Católica, estamos no Ano da Fé. O papa Bento XVI já tinha escrito uma encíclica sobre a caridade e outra sobre a esperança. Faltava uma sobre a fé, fechando a série sobre as três virtudes teologais. Era a ocasião propícia para escrever sobre a fé. De fato, o papa Francisco herda esse texto, que tem sua contribuição, mas me parece que, sendo cedo para um texto estruturado sob seu pensamento, ele tem falado bastante. Ele tem, por exemplo, o hábito da homilia diária, coisa que os outros papas não tinham. Todos os dias tem uma frase do papa Francisco na mídia, uma novidade. Parece que a força dele está na conjunção das duas realidades: do impacto das atitudes unido a suas falas. A força dele está na coerência, ele tem demonstrado muito rapidamente, de forma muito ágil — desde o momento em que saiu do balcão da Basílica de São Pedro, quando foi eleito — uma clareza de atitudes que corresponde também a clareza de seu pensamento. É essa coerência que está causando grande impacto na comunicação.

Cezar Santos — Alguém já disse que a Igreja Católica conseguiu o melhor marqueteiro, no bom sentido, que poderia ter nesse mo­mento de crise da instituição, com perda de fiéis, escândalos fi­nanceiros e sexuais. Isso porque Francisco comunica muito fácil. O sr. compartilha desse tese?
Essa colocação, para mim, soa como sendo de alguém que está de fora da igreja, de um olhar de fora. Estou habituado a olhá-la por dentro e vejo a presença de homens e mulheres de uma estatura impressionante, capazes de encantar, como João Paulo II, Madre Teresa de Calcutá, por exemplo. Os santos são grandes marqueteiros, vamos dizer assim (risos), porque eles mostram a beleza da fé. Nesse momento, dentro dos temas destacados sobretudo pela mídia, vejo que o papa Francisco responde bem a essa questões. Para quem olha de fora, me parece justa a afirmação.

Elder Dias — A simplicidade do papa está, por exemplo, no fato de ele mesmo carregar sua maleta, que contém coisas banais. Essa simplicidade assusta as pessoas porque a igreja tem uma imagem de pompa. Francisco está querendo desmistificar essa imagem em seu pontificado?
Com certeza, ele já disse isso. Na conversa com os bispos do Conselho Episcopal para a América Latina (Celam), ele pediu que os padres, bispos, pastores não tivessem uma psicologia de príncipes. Isso é muito forte. A Igreja é facilmente confundida com uma monarquia, mas ela não é uma monarquia. Logo, mesmo quem está dentro pode começar a ter expectativas que não correspondem à sua missão. O papa quer — e disse isso com todas as letras —, em coerência com o nome que escolheu [inspirado em São Francisco de Assis, santo que ficou caracterizado, entre outros aspectos, pela opção pela pobreza], tirar essa impressão falsa que a Igreja pode causar. Mesmo os membros da Igreja podem se enganar e ela não é isso. Com seus gestos simples ele comunica muito. Na eleição dele, uma das coisas mais divulgadas foi o fato de ele andar de metrô em Buenos Aires. Portanto, o gesto de simplicidade do papa Francisco não foi criado para se comunicar agora; é de autenticidade, é um gesto de Jorge Bergoglio, que foi eleito papa Francisco. Ele não deixou de ser quem ele é.

Cezar Santos — Papa Francisco admite a falha da Igreja Católica em acolher seus fiéis. Exem­plifica que católicos vão para outras religiões por não contarem com a Igreja “perto” deles. Ele diz que isso tem de mudar, que a Igreja tem de abraçar seus fiéis. Traduzindo o que ele falou, simplesmente faltam padres na Igreja Católica. No Brasil, a Igreja sofre esse problema?
Concordo com a afirmação do papa por experiência própria. Ele disse que não conhece a realidade do Brasil, mas falou sobre a realidade que conheceu na Argentina. E o exemplo que ele deu aconteceu comigo na Paróquia Santo Hilário, no Bairro Santo Hilário, em Goiânia. Ele falou de uma paróquia que ficou 20 anos sem padre. Citou uma senhora, de classe média, que lhe falou que não estava disposta a voltar porque foi sido assistida, nesse período, por um pastor. E mostrou em seu armário a imagem do Nossa Senhora. Isso aconteceu conosco. Uma senhora — só que talvez não de classe média — disse a mesma coisa e abriu o armário, mostrando a imagem de Nossa Senhora Aparecida. A Igreja pode estar deixando de ir ao encontro, o que significa a falta do clero. Nós temos poucos padres, então não é só questão de disposição subjetiva, é uma questão concreta, objetiva.  Precisamos ter um nível de evangelização tal que o fiel alcance a reflexão sobre sua vocação e faça uma escolha vocacional. Quando o processo de evangelização não alcança esse nível, o fiel não se põe a pergunta, simplesmente segue o que a natureza indica, o que a maioria vive, o que o senso comum ou a cultura do momento indica. Para o fiel, para o jovem católico, fazer a pergunta a si mesmo, diante de Deus, “como eu vou contribuir para a missão evangelizadora da Igreja?”, ele tem de ter bases sólidas, ser um jovem “crescido” espiritualmente. Tem de ter doutrina, vida de oração, ter conhecimento pessoal de Jesus Cristo para poder confiar a vida dele em um projeto bastante arriscado, fundamentalmente falando.

Cezar Santos — A visita do papa Francisco pode contribuir para que mais jovens brasileiros despertem para a vida de fé, para descobrir a vocação religiosa?
Acredito que sim, porque a vinda do papa não está isolada, não é um fato solto na vida da Igreja no Brasil. Nesse período foi mencionado várias vezes o Documento de Aparecida. Nós estamos vivendo na Igreja da América Latina e do Caribe as proposições desse documento, que nos orienta a uma missão continental. Então a Igreja está se movendo, se dinamizando. Estamos nesse processo há alguns anos. O papa vem, os refletores se voltam para a vida da Igreja e isso é percebido. Então muitos católicos vão também perceber o que está acontecendo. Num primeiro momento essa percepção pode estar focada na figura do papa, depois, vivendo o dia a dia, as pessoas vão perceber que a Igreja está se renovando, não é só o papa Francisco que é novo. O papa faz parte desse grande movimento de renovação da Igreja.

Elder Dias — O papa falou sobre a forma de acolhimento da Igre­ja em relação às pessoas. Che­gou a dizer que certos integrantes da Igreja, do clero e entre os leigos, se comportam como “fiscais da fé”, uma expressão muito forte. De fato, muitos não se aproximam mais porque se sentem rejeitados. A Igreja realmente deveria ser mais acolhedora?
A identidade da Igreja, como o papa Francisco disse, é essa. Ele mesmo falou que a Igreja é mãe. A mãe deve conhecer a dificuldade de seu filho, mas o modo de ela atuar em relação a essas dificuldades não deve ser como uma simples recriminação. Isso vem também de um momento da Igreja, estamos superando uma leitura praticamente dualista, o que sempre é uma tentação na história da Igreja. Há bons e há maus, isso é muito presente na sociedade, isso foi percebido nas proximidades do ano 2000, sobre o justo e o injusto, o certo e o errado. A vida da Igreja propriamente não faz essa consideração. No início de uma missa, todos, inclusive o ministro, por mais santo que seja, bate no peito e diz “Senhor, tende piedade de nós”. A Igreja tem consciência de que os membros que a compõem são pecadores no caminho de conversão. É preciso ressaltar a dinâmica da vida eclesial e não uma casta ou um grupo seleto de pessoas que superaram certo nível ético e moral. Não é assim. O papa enfatizou muito isso, de que o cristianismo não é uma ética, mas o encontro com uma pessoa, Jesus, que começa a fazer diferença na vida do fiel. É preciso enfatizar a dinâmica, a vida cristã. É uma proposta para todos, não é uma imposição, e faz diferença na vida daqueles que aderem a ela. Aqui é preciso dar clareza: nós, católicos, talvez tenhamos ficado rotulados de fiscais, daqueles que julgam você é certo, você é errado, você casou uma vez, você casou duas vezes...

Elder Dias — Os mandamentos não mudam, o Evangelho não muda. Mas é possível mudar o jeito de lidar com certas questões? O papa falou sobre isso, a questão das segundas uniões, do papel da mulher na Igreja etc. Pode mudar algo no sentido pastoral de condução, com o papa Francisco?
Acho que o grande legado de Bento XVI foi abrir nossos olhos para o relativismo. Mudança para uma Igreja mais acolhedora não significa uma Igreja relativista, sem doutrina, sem princípios. Mas é preciso admitir que há um caminho a ser percorrido por cada pessoa. O estágio em que ela chega está ótimo, o momento em que ela chega e adere a uma comunidade, que acolhe a mensagem do evangelho, esse é o momento ótimo para ela. A partir dali é percorrer o caminho. O papa Francisco consegue enfatizar justamente esse ponto de partida, que é para todos. Mas é preciso ter uma adesão sem medo, sem reservas, com liberdade e com generosidade também, porque não se pode dizer eu vou aderir ao Evangelho de Jesus Cristo, mas que Jesus Cristo se conforme ao meu jeito de ser. Aí é não acreditar no núcleo central da nossa fé, que diz que Jesus está vivo, está ressuscitado. Então o encontro com o filho de Deus ressuscitado me tira de mim mesmo na situação de morte em que eu vivo. E a base das situações de morte do ser humano é o ego distorcido. Não é uma questão sexual ou outras opções. O centro, o núcleo, é a egolatria, a adoração ao eu, acima daquilo que Deus ensina. Isso faz com que a pessoa fique fechada mesmo à própria palavra de Deus, usando-a para justificar suas ações. Na verdade, o encontro com Jesus se dá quando o eu para de reverenciar a si mesmo e admite a supremacia do Deus vivo e verdadeiro.

Cezar Santos — O mundo é finito e os recursos dele, também. Há possibilidade de a Igreja rever seu posicionamento quanto os métodos contraceptivos?
Essa é uma questão específica, assim como a possibilidade de sacerdócio para as mulheres, cujo tema foi abordado na última entrevista do papa, na viagem de retorno a Roma agora. Ele disse “isso já está definido”, sobre essa questão o sacerdócio para mulheres. A verdade é que o mundo cria outros dogmas, os quais a sociedade começa a reverenciar. Por exemplo, no caso do sacerdócio para as mulheres, há um dogma do feminismo, segundo o qual há uma igualdade entre homens e mulheres. Isso é frágil.

Elder Dias — Um dogma laico? (risos)
Exatamente. E da mesma for­ma isso vale para a preocupação com o número de filhos, dada a informação de que a natureza não conseguiria gerar alimentos para a humanidade quando a população chegasse a determinado número. Po­rém, o homem tem provado sua capacidade de produzir alimentos. Mas não é essa questão. A doutrina da Igreja não é “cada ca­sal tenha um filho por ano”. Não é isso, mas a paternidade responsável. O casal, sendo aberto à vida, deve medir suas possibilidades para ter os filhos e bem criá-los. Mas sem cair no constrangimento do egoísmo, do capitalismo desenfreado etc. Exagerando, al­guém pode dizer “se eu não pu­der dar uma Ferrari para meu fi­lho quando ele completar 18 anos, então não vou ter dois filhos”. Isso é um exagero, mas esse sentimento é muito presente. A Igreja de­fende que o próprio casal meça suas condições psicológicas, afetivas, econômicas, de saúde etc. para ter três filhos, ou cinco, bendito seja se puder. Não é vergonhoso para ele que tenha tal nú­me­ro de filhos. A questão é a va­lo­rização da vida que livra as pessoas do egocentrismo. O método para viver uma paternidade responsável já é outra questão. O uso de métodos contraceptivos já entra no âmbito do relacionamento conjugal, que deve ser unitário. A fecundidade não deve se dissociar do valor unitivo do relacionamento do casal. O que a Igreja diz é que a natureza comporta a du­pla realidade. Então, o casal não deve dissociar o que é próprio do humano. Não deveria haver uma interferência artificial para bloquear uma fecundação quando há um relacionamento conjugal sob as bases do amor. A Igreja supõe, para tanto, um longo caminho de conversão, não é doutrina para iniciantes — é preciso formação, doutrina, catequese, vida espiritual. Um casal bem formado na doutrina e que quer viver esse caminho de crescimento espiritual admite a lógica natural, segundo a qual, apoiado no ciclo de fecundidade da mulher, tal casal pode privilegiar determinado momento; ou, se quer ter filhos, outros momentos desse ciclo.

Elder Dias — O sr. falou bem: há católicos em vários estágios, inclusive na porta de entrada da Igreja. Como explicar esses conceitos complexos, aplicados a quem já está avançado na doutrina, para um fiel em início de caminhada? Por exemplo, entre a contracepção artificial e o aborto não há também algo filosófico — do “mal menor” — que poderia ser aplicado?
O contexto de sua pergunta tem a ver com a grande preocupação que a Igreja tem com a vida. A vida humana é um bem maior e o papa Francisco frisou muito sobre esse tema. Quando a humanidade começa a selecionar quem merece viver ou morrer, toda a humanidade está ameaçada. A visão da Igreja quanto ao aborto, por exemplo, é muito clara: admitir o aborto em um extremo é admitir a eutanásia no outro. É muito delicado para uma família que está com um idoso na UTI passar por uma situação dessas. Essas margens muito extremas começam a ser aproximadas. Então, o problema não é mais o aborto no terceiro mês de gravidez, já se busca estendê-lo até o quinto mês, como em outros países. Há gente que pense até em “aborto” até o segundo ano de vida da criança, porque ela não teria uma concepção formada de si mesma. É uma ideia absurda. Falando em aborto, estamos falando também daqueles que não têm acesso à saúde, aos bens básicos. Não deixa de ser uma eugenia, se começa a selecionar quem deve e quem não deve viver. A vida humana precisa ser considerada em seu todo. Nós devemos nos responsabilizar por todos os seres humanos, é o que a Igreja pensa. No caso particular do fiel que está chegando à Igreja, que encontra a porta aberta — ou até mesmo aquele que foi alcançado fora da Igreja, na empresa, na redação do jornal —, é preciso compreender como essa pessoa, que não se “enquadra” nos princípios morais da Igreja, se sentiria indo a um lugar clássico da vida da Igreja, como a missa. Entendo que é preciso gerar ambientes de acolhimento. A missa precisa ser lugar de acolhimento, não é o lugar da correção moral, porque há pessoas diversas naquele local, desde quem não foi batizado ainda até cristãos em estágio avançado da doutrina. Pregar na missa é algo extremamente exigente, porque é necessário dar alimento no nível de cada um. É uma arte. E o papa tem frisado o valor da homilia [sermão]. Que essa homilia leve ao mistério de Cristo, encontro com Cristo, que toque as questões do dia a dia, que se fundamente na palavra de Deus, mas que não caia em moralismos. A homilia não é hora das receitas de vida. Sobre as receita de vida, que cada um encontre a sua. O apoio para a receita de vida deve ser em um outro momento, na conversa com um conselheiro espiritual, que pode ser individual ou para um casal. Não deve ser para todos reunidos em uma missa. Precisamos de lugares de acolhimento e de lugares de formação. A missa é um momento celebrativo, festivo, onde todos juntos somos conduzidos pelo Bom Pastor, todos crescemos, cada um na medida que lhe é própria.

Cezar Santos — O senhor, como grande conhecedor da política da Igreja, foi surpreendido pela eleição do Papa Francisco?
A eleição dele surpreendeu muitos e me incluo entre esses. Por mais que eu seja um bispo, não sou um vaticanista, isto é, não corro atrás dessas notícias e acabei ficando com os nomes que a própria mídia veiculou (risos). E a lista da mídia não destacou o no­me de Bergoglio. A surpresa inicial com sua escolha, para mim, lo­go se tornou uma perspectiva promissora, principalmente a partir do que eu ouvi de Dom Washington.

Cezar Santos — O que o Dom Washington falou a respeito?
Dom Washington estava ao meu lado quando o nome do pa­pa foi anunciado. E assim que o no­me foi divulgado, ele disse “di­zem que ele (Bergoglio) quase foi eleito no conclave passado”. E completou então: “É o arcebispo de Buenos Aires.” E fez um elogio.

Cezar Santos — Mas também para ele foi uma surpresa?
Diferente da minha, porque, para mim, Bergoglio era um desconhecido. Como Dom Washin­gton o conhecia, ficou surpreso e logo a seguir contente. Foi uma surpresa agradável. Eu ainda não tinha referências do papa eleito.

Cezar Santos — Analistas dizem que a eleição de Francisco foi por causa de uma revolta do “baixo clero” da Igreja. Na política, esse termo se aplica a parlamentares que podem até ter certa influência de bastidores, mas não têm visibilidade para o grande público. Esses articulistas dizem que houve uma articulação de cardeais da Ásia, da África e da América Latina para a eleição de Bergoglio e que isso possibilitou que ele se tornasse papa. O sr. vê sentido nisso?
Olhando para a continuidade do que temos vivido eu diria que, desde João XXIII [papa entre 1958 e 1964, em cujo pontificado houve a inovação do Concílio Vaticano II, que mudou os rumos da Igreja Católica] há uma direção. Eu acredito mais que Deus cuide de sua Igreja, claro que por meio das pessoas. Nesse caso, tudo passa pelos cardeais. Eu até admito uma articulação, mas não no sentido de uma “revolta” da Igreja. Diria que os cardeais fo­ram atentos ao movimento da Igreja na América Latina. A Igreja na Europa vive uma situação de estagnação, como todo o continente vive a mesma estagnação na economia. A Europa está em um momento delicado. Havia o nome de um cardeal canadense, Marc Ouellet, que é o prefeito da Congregação para os Bispos, um homem de grande expressão na Igreja, muito querido e muito simples, que estava presente agora, no Rio. Os cardeais foram muito ousados em apostar na América Latina. Tiveram coragem, mas, pelo amor que eles têm à Igreja, isso não é simplesmente uma revolta, não se justificaria dessa forma: eles reconheceram que o caminho da Igreja na Amé­rica Latina foi capaz de gerar um papa. Ou seja, houve o reconhecimento não só de uma personalidade, mas de alguém que foi forjado em um caminho de abertura, de uma Igreja dinâmica. O que o papa Francisco fala é o que a Igreja tem vivido na América Latina ao longo das décadas, indo ao encontro dos pobres. Por mais que a fala de Francisco nos desafie, ela é muito mais desafiadora para a Europa.

Cezar Santos —A mídia brasileira foi atrás de uma figura que foi excluída da Igreja, Leonardo Boff, para repercutir tanto a eleição do novo papa quanto sua vinda ao Brasil. Não é uma visão caolha da mídia e, de certa forma, alto negativo também para a Igreja?
Leonardo Boff tem uma capacidade de reflexão muito boa, desenvolveu uma argumentação crítica e isso atrai a mídia, que quis essa posição, como se fosse um contraponto. Creio que a mídia tem direito de fazer isso e Boff tem também o direito de exprimir suas ideias. Mas não faltaram vozes que também representavam o pensamento dos cardeais e da Santa Sé. Tudo ajudou na formação geral da opinião.

Elder Dias — A abertura que o papa Francisco deu às causas sociais — luta pelos excluídos, contra a desigualdade, o combate ao consumismo etc. — tem repercutido. Mas alguns analistas estão interpretando como uma forma de dar novo fôlego à Teologia da Libertação.
Na conversa do papa Fran­cis­co com o Celam, ele chamou a atenção dos bispos para terem atenção às ideologias. Ele está muito atento e tem clareza dos riscos. A Teologia da Libertação, ou a teologia católica que tem uma forte sensibilidade para com os excluídos — vai permanecer para sempre. Só que houve uma boa parcela dos adeptos dessa teologia — escritores, divulgadores e outros —, que, por assim dizer, caiu na armadilha da ideologia marxista. Quando Francisco diz “atenção às ideologias”, ele está sinalizando que é preciso dar atenção aos pobres e aos excluídos, mas que não se deixe instrumentalizar por ideologias. O rumo a seguir é sempre o do Evangelho.

Cezar Santos — Por essa fala do papa, então, podemos deduzir que não há possibilidade de que volte a existir a figura do “padre de passeata”, cunhada um dia por Nelson Rodrigues?
Com certeza. Não pode haver esse dualismo no qual caiu a Teologia da Libertação, entre o opressor e o oprimido. Luta de classes não é doutrina católica. Nossa doutrina quer que todos se convertam, incluindo aí o patrão: que essa conversão chegue às disposições na relação trabalhista com seus empregados. O mesmo vale para o político, para que pense prioritariamente no pobre, nas camadas mais desassistidas. Mas, mais do que o “padre de pas­seata”, não vamos chegar à homilia que distinga, na mesma assembleia, um fiel católico chamado opressor e outro chamado oprimido. Isso é inaceitável.

Elder Dias — Vamos falar de outra teologia que Francisco vai combater com tanto ou mais vigor que essa: é a teologia da prosperidade, criada no meio evangélico, e que prega que o tamanho da bênção de Deus se mede pela quantidade de bens e riquezas obtidos. O que o sr. acha que o papa tem a dizer sobre ela?
O papa Francisco está gritando contra isso. Está até atingindo até elementos menos refinados, nesse tema, do que a própria teologia da prosperidade. Francisco está dizendo que não é a capacidade de consumo que torna o ser humano realizado. De fato, não é mesmo. A teologia da prosperidade gera grande engano ao interpretar “bênção” como “qualidade de vida”, mas qualidade de vida sob os padrões do materialismo consumista. Isso é um grande equívoco, uma distorção do Evan­gelho. É uma tentativa de adaptação dos preceitos evangélicos. A teo­logia da prosperidade, no fundo, leva o fiel ao descrédito, pois não leva a Deus, mas, sim, à satisfação dos próprios desejos. Isso não é cristianismo, ao contrário, vai totalmente de encontro à mensagem inicial de Jesus, que diz “quem quiser me seguir, tome sua cruz a cada dia e me siga”. A cruz não é sofrimento, é capacidade de doação. Isso vai totalmente contra a teologia da prosperidade. Esta, diz que se você tem dois carros, você pode ter três ou quatro se for abençoado. Já o papa Fran­cisco vem para dizer: “Se você tem dois carros, verifique se precisa mesmo dos dois, quem sabe você possa partilhar um deles.” (risos) Ele diz, com seu próprio exemplo, que não há necessidade de um carro de R$ 150 mil se se pode andar em um carro de R$ 30 mil. Esse carro vai me levar aonde eu preciso ir tanto quanto o outro, de R$ 150 mil. Quando ele diz isso aos pastores da Igreja (bispos, padres etc.) “vivam assim”, está dizendo também a eles “proponham esse modelo para a prática cotidiana aos fiéis”. O papa não falou isso diretamente aos fiéis, mas isso vai repercutir.

Cezar Santos — Nesse sentido, eu achei incrível um flagrante dele ao subir em um avião. Deram um “close” no sapato, que estava com o solado bem gasto, com o salto precário já. Ele realmente demonstra isso com o próprio exemplo.
Francisco tem um valor profético. Nós estamos contemplando uma profecia. Para a doutrina católica, é fácil entender que Deus está falando para nós por meio de Francisco. Não é só ele mesmo que está nos encantando, mas, sim, encontrar a mensagem de Jesus Cristo. Não é uma segunda encarnação, obviamente, mas ele está representando Jesus. Deus está dizendo, por meio desse papa, o que é fundamental para nossa felicidade e para a vida humana. Quando ele resgata a pessoa de São Francisco de Assis pelo próprio nome, temos então um programa de papa, um “programa de governo” completo. Isso foi bastante explicitado na Jornada Mundial da Juventude, quando tivemos a primeira ocasião para ouvir bastante Francisco, em discursos longos. E ele convenceu muitos. Eu mesmo me senti tocado.

Elder Dias — E o que mais tocou o sr. em relação ao conjunto do que foi dito por Francisco?
É difícil responder essa pergunta, porque foram muitos elementos e todos fortes. Mas eu voltaria a uma resposta minha do início desta entrevista: a coerência de Francisco. Nós nos cansamos dos papéis. Nossa sociedade se tornou muito mais algo que pede papéis do que homens e mulheres de verdade, de carne e osso, que se assumem, que vibram, que se doam.

Cezar Santos — O que fica de legado da estadia de Francisco no Brasil? Há algo específico que sirva para a Igreja no Brasil?
Existe algo que já está presente na mensagem da Igreja, mas que agora ficou carimbado e chancelado pelo papa com todo o vigor: saiam ao encontro. Há um “ide” inequívoco, repetido insistentemente, em vários momentos. Francisco não se desviou em instante algum dessa mensagem. A nova evangelização é um bem para a Igreja, sim; mas da mesma forma, é um bem para a sociedade e para a humanidade. E isso não é para amanhã, é para hoje.

Elder Dias —O papa veio ao Brasil em um momento crítico do País, que vive a ebulição das manifestações. Temeu-se que sua vinda pudesse acirrar mais ainda os ânimos, principalmente no Rio, onde tudo está ainda mais grave. Como o sr., como líder da Igreja de Goiânia, vê esse tipo de despertar da consciência popular, cobrando, exigindo, às vezes até com certo exagero na forma de fazer isso?
Nesses momentos, a gente sempre se lembra da própria história. Na época das Diretas Já eu estava entrando na universidade. Então, quando apareceu algo como essas manifestações, tive a impressão de “poxa vida, finalmente alguém saiu às ruas!” (risos). É uma surpresa, esse tipo de mobilização. Em relação às manifestações pacíficas, isso reflete o cansaço dos papéis e do jogo de faz-de-conta, como eu mencionei. Essa cultura da imagem não é uma coisa de imagens forjadas. A juventude está dizendo que está na internet, na cultura digital, mas não quer só imagem: nós somos humanos e o humano sabe distinguir entre o bem e o mal, entre o que contribui e o que distorce, o que desconstrói, o que prejudica. Essa juventude é capaz de fazer esse julgamento e agora encontrou uma via de comunicação, para dizer “estamos insatisfeitos”. Parece uma mensagem negativa, esse “insatisfeitos”, mas há uma proposta, tem algo propositivo. Espera-se a solução de problemas, esperam-se encaminhamentos. Todos queremos coerência na política, combate à corrupção e outras coisas. Há aquilo que é bem pontual, como a questão da tarifa do transporte público, mas também alguns temas bem am­plos, como a reforma política. Vejo com bons olhos o fato de o ser humano usar sua razão, sua capacidade de comunicação e de leitura crítica da realidade, para se articular e se movimentar a favor de causas. Precisamos caminhar para a frente, a humanidade não pode ficar anestesiada diante da TV ou do computador. Essa juventude estava sendo vista mais ou menos dessa forma e provou que não era assim. É a genialidade humana que se aflora também nesse tipo de manifestação.

Elder Dias — A violência é algo cada vez mais preocupante. Nesta semana tivemos um caso terrível em Jataí, onde duas adolescentes mataram uma terceira garota a facadas, em um crime premeditado. Que tipo de sociedade está sendo construída? Isso não assusta o sr.? Claro que isso sempre aconteceu na história da humanidade, mas não é um sinal de que não estamos evoluindo?
Fatos como esse dão a medida da sociedade que temos. Às vezes, por ter um pequeno sucesso econômico, nos sentimos acima do bem e do mal. O problema da droga, do narcotráfico, da violência banal — embora toda violência seja recriminável, mas essa assusta mais —, tudo isso indica que estamos perdendo valores. E são os valores que fazem o ser humano, a cultura, a sociedade. Não quero criticar de modo excessivo o tema da economia. É importante pensar na casa própria, no alimento, na saúde. Mas esse economicismo, essa coisa distorcida, esse materialismo nos desumaniza.

Elder Dias — Há outros valores que andam meio esquecidos e podem ser até mais “baratos”: educação, conhecimento, cultura.
Sem dúvida. E também a idoneidade, o respeito ao outro. Isso é da vida humana.

Elder Dias — Mas quando se fala em valores, parece que há sempre envolvendo um aspecto religioso, o que não é verdade. As instituições religiosas contribuem, mas há muito mais. Parece que as pessoas não percebem isso mais.
Há uma violência institucionalizada no tocante ao narcotráfico, à comercialização da droga.

Elder Dias — O sr. considera que a droga é o principal problema social do Brasil?
Se não é o principal, com certeza é um dos principais. É algo que toca o micro, toca a família, entra em casas de todas as camadas sociais; ao mesmo tempo, toca o macro, pois é uma questão de governo, de política, de economia, de segurança nacional. É um drama extremamente desafiador, porque há uma parcela numerosa que envolvida e outra parcela que se beneficia.

Cezar Santos — E a solução não passa pela descriminalização, como disse o papa.
Sim, não passa, porque ao descriminalizar não se enfrenta o problema. Pelo contrário, há muito mais uma acomodação do que um enfrentamento, do que a busca de uma solução.



segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Palavras do Papa


Ângelus de 04 de agosto de 2013

Queridos irmãos e irmãs!

Domingo passado eu estava no Rio de Janeiro. Concluía-se a Santa Missa e a Jornada Mundial da Juventude. Penso que devemos todos juntos agradecer ao Senhor pelo grande dom que foi este acontecimento para o Brasil, para a América Latina e para o mundo inteiro. Foi uma nova etapa na peregrinação dos jovens através dos continentes com a Cruz de Cristo. Não devemos nunca esquecer que as Jornadas Mundiais da Juventude não são “fogos de artifício”, momentos de entusiasmo com fins em si mesmos; são etapas de um longo caminho, iniciado em 1985, por iniciativa do Papa João Paulo II. Ele confiou aos jovens a Cruz e disse: ide, e eu irei com vocês! E assim foi; e esta peregrinação dos jovens continuou com o Papa Bento e graças a Deus também eu pude viver esta maravilhosa etapa no Brasil. Recordemos sempre: os jovens não seguem o Papa, seguem Jesus Cristo, levando a sua Cruz. E o Papa os guia e os acompanha neste caminho de fé e de esperança. Agradeço por isso os jovens que participaram mesmo a custa de sacrifícios. E agradeço ao Senhor também pelos outros encontros que tive com os Pastores e o povo daquele grande país que é o Brasil, bem como as autoridades e os voluntários. O Senhor recompense todos aqueles que trabalharam por esta grande festa da fé. Quero destacar também o meu agradecimento, tantos agradecimentos aos brasileiros. Brava gente esta do Brasil, um povo de grande coração! Não esqueço a sua calorosa acolhida, as suas saudações, os seus olhares, tanta alegria. Um povo generoso; peço ao Senhor que o abençõe muito!

Gostaria de pedir-vos para rezarem comigo a fim de que os jovens que participaram da Jornada Mundial da Juventude possam traduzir esta experiência no seu caminho cotidiano, nos comportamentos de todos os dias; e que possam traduzi-lo também em escolhas importantes de vida, respondendo ao chamado pessoal do Senhor. Hoje na liturgia ecoa a palavra provocativa de Eclesiastes: “Vaidade das vaidades… tudo é vaidade” (1, 2). Os jovens são particularmente sensíveis ao vazio de significado e de valores que muitas vezes os circunda. E infelizmente pagam as consequências. Em vez disso, o encontro com Jesus vivo, na sua grande família que é a Igreja, enche o coração de alegria, porque o enche de vida verdadeira, de um bem profundo, que não passa e não apodrece: vimos isso nos rostos dos jovens no Rio. Mas esta experiência deve enfrentar a vaidade cotidiana, o veneno do vazio que se insinua nas nossas sociedades baseadas no lucro e no ter, que iludem os jovens com o consumismo. O Evangelho deste domingo nos lembra propriamente o absurdo de basear a própria felicidade no ter. O rico diz a si mesmo: ó minha alma, tens à disposição muitos bens… descansa, come, bebe e divirta-se! Mas Deus lhe diz: Insensato, nesta noite ainda exigirei de ti a tua alma. E as coisas que ajuntaste, de quem serão? (cfr Lc 12, 19-20). Queridos irmãos e irmãs, a verdadeira riqueza é o amor de Deus compartilhado com os irmãos. Aquele amor que vem de Deus e faz com que nós compartilhemos entre nós e nos ajudemos entre nós. Quem faz esta experiência não teme a morte, e recebe a paz do coração. Confiemos esta intenção, a intenção de receber o amor de Deus e compartilhá-lo com os irmãos, à intercessão da Virgem Maria.



Retiro Dia A Vocação e a Missão da Mulher


quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Papa Francisco concede entrevista sobre a canonização dos Papas João XXIII e JPII



SOBRE AS CANONIZAÇÕES DE J.P.II E JOÃO XXIII

Papa Francisco: "Ei fiz atrasar a janta de vocês..."

Jornalista mexicana Valentina Alazraki:

P: Não importa, não importa. Bem, a pergunta de todos os mexicanos seria: Quando vai a Guadalupe? Mas essa é dos mexicanos, a minha seria: Vossa Santidade irá canonizar dois grandes Papas, João XXIII e João Paulo II; eu queria saber qual é – a seu modo de ver – o modelo de santidade que sobressai num e noutro e qual é o impacto que eles tiveram na Igreja e na vida do senhor?

Papa Francisco: "João XXIII é um pouco a figura do «padre da aldeia», o padre que ama a cada um dos fiéis, que sabe cuidar dos fiéis e fez isso como bispo, como núncio. Se soubessem quantas certidões falsas de Batismo ele passou na Turquia a favor dos judeus! É um corajoso, um padre de aldeia bom, com um sentido de humor muito grande, muito grande, e uma grande santidade. Quando era núncio, havia alguns no Vaticano que não gostavam muito dele e quando ele chegava para trazer coisas ou pedir, em alguns serviços faziam-no esperar. Nunca se lamentou: rezava o terço, lia o Breviário…, nunca se lamentou! Um manso, um humilde, e também um que se preocupava com os pobres. Quando o Cardeal Casaroli voltou de uma missão na Hungria ou no território da Tchecoslováquia de então – não me lembro qual das duas –, foi ter com ele para explicar-lhe como andara a missão, naquele período da diplomacia dos «pequeno passos». E houve a audiência – João XXIII morria 20 dias depois – e quando Casaroli estava saindo, ele o parou: «Ah Eminência – não, não era Eminência – Excelência, uma pergunta: o senhor continua a visitar aqueles adolescentes?» (é que Casaroli ia ao cárcere juvenil de Casal del Marmo e jogava com eles). E Casaroli disse: «Sim, sim!» «Nunca lhes abandone». Isso disse João XXIII a um diplomata, que acabava de fazer um périplo de diplomacia, uma viagem tão empenhativa: «O senhor nunca abandone aqueles adolescentes». É um grande, um grande! Depois o evento do Concílio: é um homem dócil à voz de Deus, porque aquilo lhe veio do Espírito Santo; lhe veio e ele foi dócil. Pio XII pensava em fazê-lo, mas as circunstâncias não estavam ainda maduras para isso. Eu acho que este [João XXIII] não pensara nas circunstâncias: ele sentia aquilo e fê-lo. Um homem que se deixava guiar pelo Senhor. De João Paulo II, apetece-me chamar-lhe «o grande missionário da Igreja»: é um missionário, é um missionário, um homem que levou o Evangelho a toda a parte; sabem-no melhor vocês do que eu. Quantas viagens ele fez? Ia! Ele sentia este fogo de fazer avançar a Palavra do Senhor. É um Paulo, é um São Paulo, é um homem assim; e isso para mim é grande. E acho que fazer a cerimônia de canonização dos dois juntos seja uma mensagem para a Igreja: estes dois são bons, eles são bons, são dois bons. Mas estão em curso as causas de Paulo VI e também do Papa Luciani: as causas destes dois estão em andamento. Uma coisa mais – creio que já a disse, mas não sei se aqui ou em outra parte –: a data de canonização. Pensava-se no dia 8 de dezembro deste ano, mas levanta-se um problema sério: aqueles que vêm da Polônia, os pobres – porque aqueles que têm meios podem vir de avião – mas os pobres que querem vir fazem-no de ônibus; e, em dezembro, as estradas já têm neve, acho que devemos repensar a data. Falei com o Cardeal Dziwisz e ele me sugeriu duas possibilidades: o Cristo Rei deste ano, ou o domingo da Misericórdia do próximo ano. Eu acho que é um tempo curto o Cristo Rei deste ano, porque o Consistório será em 30 de setembro e, até ao final de outubro, há pouco tempo. Não sei, tenho de falar com o Cardeal Amato sobre isso. Mas penso que não vai ser em 8 de dezembro".

Pergunta: Mas serão canonizados juntos?

Papa Francisco: "Os dois juntos, sim".


PAPA FRANCISCO 28/07/2013