terça-feira, 3 de junho de 2014

Exercício de Formação em Teologia do Corpo - Texto para reflexão




O dom esponsal de Cristo na cruz

Por Christopher West

Vou refletir aqui sobre o mistério do Corpo de Cristo “entregue por nós” na cruz. Gostaria de falar a partir de um ponto de vista familiar aos místicos de nossa tradição, mas infelizmente não familiar à maioria dos católicos nos bancos das igrejas. É uma ideia que, se a meditarmos em oração, pode nos ajudar a resgatar a santidade do corpo e da união marital. É a ideia da cruz como o “leito nupcial” de Cristo – o lugar onde ele consuma seu amor pela Sua Esposa, a Igreja.

Essa imagem pode fazer levantar algumas sobrancelhas, mas ela não precisa ser causa de escândalo, basta compreendermos corretamente o simbolismo esponsal da Bíblia. Como observa o Catecismo, “Toda a vida cristã traz a marca do amor esponsal de Cristo e da Igreja. Já o Batismo... é um mistério nupcial; é, por assim dizer, o banho das núpcias que precede o banquete de núpcias, a Eucaristia” (CIC 1617). Podemos também relembrar as últimas palavras de amor de Cristo, proferidas da cruz para a Sua Esposa: “Está consumado” (Jo 19,30).

Santo Agostinho escreveu: “Como um noivo, Cristo saiu de seus aposentos... Ele veio para o leito nupcial da cruz, e sendo levantado nela, consumou seu matrimônio. E quando Ele percebeu os suspiros de sua criatura, amorosamente Ele se entregou aos tormentos no lugar de sua Esposa e uniu-se a ela para sempre” (Sobre o Casamento). Santa Matilde, uma mística alemã do século XIII, espelhou a mesma ideia quando escreveu que “o nobre leito nupcial [de Cristo] foi a mesma dura madeira da Cruz, a qual Ele aceitou com maior júbilo e ardor do que um noivo cheio de satisfação".

A primeira vez que ouvi essa ideia da cruz como “leito nupcial” foi através do Bispo Fulton Sheen, em uma palestra gravada que ouvi alguns anos atrás. A voz forte de Sheen ainda ecoa em minha mente: “Vocês sabem o que está acontecendo aos pés da cruz?”, ele perguntou. “Núpcias, é o que está havendo! Núpcias!”. Assim como Agostinho, ele então descreveu a cruz como o “leito nupcial” que Ele aceitou não no prazer, mas na dor, a fim de unir-se para sempre com sua Esposa. O bom bispo continuou explicando que sempre que Jesus chama Maria de “mulher” (tal como ocorreu nas Bodas de Caná e na cruz), Ele está falando como o novo Adão para a nova Eva, o Esposo para a Esposa. Aqui, é claro, as relações estão fora da esfera do sangue. O fato de que a mãe de Cristo é a “mulher”, simbolizando sua Esposa, não precisa nos preocupar. O matrimônio do novo Adão e da nova Eva, consumado na cruz, é místico e virginal. O próprio Catecismo refere-se à essa “mulher” (Maria) como a “Esposa do Cordeiro” (CIC 1138). Contemplar esse simbolismo esponsal nos abre verdadeiros tesouros. Assim como o primeiro Adão foi colocado em um sono profundo e Eva veio de seu lado, assim o novo Adão aceitou o sono da morte e a nova Eva nasceu de seu lado (ver CIC 766). Normalmente isso é figurado artisticamente como uma imagem da “mulher” (Maria) segurando um cálice – ou algumas vezes um largo jarro, reminiscência de Caná – aos pés da cruz, recebendo o fluxo de sangue e água que saíam do lado de Cristo. O sangue e a água, é claro, simbolizam o “banho de núpcias” do Batismo e a “festa nupcial” da Eucaristia.

E ainda há mais coisas aqui! A união mística do novo Adão e da nova Eva já rende frutos sobrenaturais. “Mulher, eis aí teu filho!”. Então, Ele disse para seu discípulo, “Eis aí tua mãe!” (Jo 19,26-27). Podem-se escrever essas palavras de Cristo de outro modo: “Mulher, eis que dás à luz um novo filho”. O sofrimento de Maria aos pés da cruz são suas dores de parto ao dar à luz todos os filhos da Igreja. Aqui o discípulo amado (João) representa toda a descendência “nascida de novo, não de uma semente corruptível, mas incorruptível” (1Pe 1,23), “não do sangue,... mas de Deus” (Jo 1,13).

São Paulo não estava brincando quando descreveu a união dos esposos como um “grande mistério”, que se refere a Cristo e a Igreja (ver Ef 5,31-32). Jesus, abri nossos corações novamente para esse “grande mistério”, revelado através do vosso corpo entregue por nós no “leito nupcial” da cruz. Amém.

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