sexta-feira, 18 de julho de 2014

Uma Teologia Básica do Casamento





Por Christopher West

O século XX testemunhou desenvolvimentos significantes na teologia da Igreja a respeito do casamento, começando com a encíclica Casti Conubii, escrita pelo Papa Pio XI em 1930, passando pelo Concílio Vaticano II e a encíclica Humanae Vitae, do Papa Paulo VI, e culminando nos vários escritos e pensamentos do Papa João Paulo II. De fato, mais de dois terços de tudo o que a Igreja Católica disse sobre o casamento em seus dois mil anos de história veio à tona durante o pontificado de João Paulo II. [1]

O Concílio Vaticano II marcou a mudança de uma apresentação meramente “jurídica” do casamento, típica de muitos pronunciamentos anteriores da Igreja, para uma abordagem mais “pessoal”. Em outras palavras, ao invés de focar meramente as “obrigações”, “direitos” e “fins” do casamento, os Padres do Concílio enfatizaram como essas mesmas obrigações, direitos e fins são manifestados pelo amor íntimo e interpessoal dos esposos. “Tal amor, fundindo o humano e o divino, conduzem os esposos a uma livre e mútua doação de si mesmos, uma doação oferecendo-se a si mesmos por uma suave afeição, e por direito; tal amor permeia completamente suas vidas, crescendo mais e melhor através de sua generosidade.” [2]

Explicar de que forma o amor conjugal pode ser uma “fusão entre o humano e o divino” é a meta da teologia do casamento. Embora muito mais possa e deva ser dito do que este artigo permite[3], nós podemos ao menos apresentar uma teologia matrimonial básica. Comecemos com uma definição do casamento vinda do Vaticano II e da Lei Canônica, e depois explicaremos cada um de seus pontos.

Uma Definição de Casamento

O casamento é a íntima, exclusiva e indissolúvel comunhão de vida e de amor assumida por homem e mulher como desígnio do Criador com o propósito de seu próprio bem e da procriação e educação dos filhos; esta aliança entre pessoas batizadas foi elevada por Cristo Senhor à dignidade de um sacramento. [4]

Comunhão íntima de vida e amor: o casamento é a mais estreita e a mais íntima das afeições humanas. Ele envolve a partilha da vida inteira de uma pessoa com seu(sua) esposo(a). O casamento chama os esposos para uma mútua entrega de si mesmos um ao outro, tão íntima e completa que — sem perder sua individualidade — se tornam “um” não somente no corpo, mas também na alma.

Comunhão exclusiva de vida e amor: como uma doação mútua de duas pessoas uma à outra, esta união íntima exclui semelhante união com qualquer outra pessoa. Ela exige a total fidelidade entre os esposos. Esta exclusividade é também essencial para os filhos do casal.

Comunhão indissolúvel de vida e amor: marido e mulher não se unem apenas pela emoção ou pela simples atração erótica, a qual, egoísticamente buscada, rapidamente vão embora[5]. Eles se unem num amor conjugal autêntico pelo firme e irrevogável ato de sua própria vontade. Uma vez que seu mútuo consentimento seja consumado pela relação sexual, um inquebrável laço é estabelecido entre os esposos. Para os batizados, este laço é selado pelo Espírito Santo, e se torna absolutamente indissolúvel. Assim, a Igreja não ensina que o divórcio é errado, mas que o divórcio é impossível, independente de suas implicações civis.

Assumidos por homem e mulher: a complementariedade dos sexos é essencial para o casamento. Há tanta confusão difundida hoje em dia a respeito da natureza do casamento que alguns desejam extender o “direito legal” de se casar para duas pessoas do mesmo sexo. A verdadeira natureza do casamento torna impossível tal proposição.

Como desígnio do Criador: Deus é o autor do casamento. Ele inscreveu o chamado ao casamento em nosso próprio ser criando-nos homens e mulheres. O casamento é governado por suas leis, fielmente transmitidas por sua Noiva, a Igreja. Para o casamento ser o que ele é, ele precisa estar conforme a estas leis. O homem, portanto, não são livres para mudar qualquer significado ou propósito do casamento.

Com o propósito de seu próprio bem: “Não é bom que o homem esteja só” (Gn 2,18). Ao contrário, é para o seu próprio bem, para seu benefício, enriquecimento, e finalmente, pela sua salvação, que um homem e uma mulher unem suas vidas no casamento. O casamento é a mais básica expressão da vocação para o amor que todos os homens e mulheres possuem, enquanto pessoas criadas à imagem de Deus.

E da procriação e educação dos filhos: “Por sua própria natureza, a instituição do casamento e do amor conjugal são ordenadas para a procriação e educação dos filhos, e encontrar nisso seu auge máximo”[6]. Os filhos não são acrescentados ao casamento e ao amor conjugal, mas brotam, como fruto e realização, do próprio coração da mútua doação entre os esposos. A exclusão intencional dos filhos, portanto, contradiz a própria natureza e propósito do casamento.

Aliança: uma vez que o casamento envolve um contrato legal, ele precisa se submeter à aliança matrimonial que proporciona uma estrutura mais forte e sagrada para o casamento. Uma aliança convida os esposos a compartilhar do amor livre, total, fiel e fecundo de Deus. Por isso é Deus quem, à imagem de sua própria Aliança com seu povo, une os esposos de uma forma tão ligada e tão sagrada como nenhum contrato humano poderá jamais garantir.

A dignidade de um sacramento: o casamento entre pessoas batizadas é um sinal eficaz da união entre Cristo e a Igreja e, assim, é um canal de graça (veja abaixo uma discussão mais completa). O casamento de duas pessoas não batizadas, ou entre uma batizada e outra não batizada, é considerado pela Igreja um casamento “bom e natural”. Embora não sacramentais, tais casamentos são uniões sagradas que compartilham do mesmo bem e dos mesmos propósitos do casamento sacramental.

A Centralidade do Casamento no Plano de Deus

“A Sagrada Escritura começa com a criação do homem e da mulher à imagem e semelhança de Deus e conclui com uma visão das ‘núpcias do Cordeiro’. As Escrituras falam do começo ao fim sobre o casamento e seu ‘mistério’, sua instituição e o significado que Deus lhe deu, sua origem e seu fim, … as dificuldades em se erguer do pecado, e sua renovação ‘no Senhor’”[7]. Do começo ao fim do Antigo Testamento, o amor de Deus por seu povo é descrito como o amor de um esposo por sua noiva. No Novo Testamento, Cristo encarnou este amor. Ele veio como o Noivo Celeste para unir-se indissoluvelmente à sua Noiva, a Igreja.

O casamento, portanto, não é uma questão periférica na vida cristã. Ele se encontra justamente no coração do mistério cristão e, por meio de sua grandiosa analogia, serve para iluminá-la. Todas as analogias são inadequadas em suas tentativas de comunicar o mistério de Deus. Porém, falando sobre casamento e família, João Paulo explica: “Neste mundo inteiro não há uma imagem mais perfeita da União e Comunidade de Deus. Não há nenhuma outra realidade humana que corresponda melhor, humanamente falando, àquele mistério divino”[8].

O Papa João Paulo II vai, até agora, mostrando que nós não podemos compreender o mistério cristão sem que tenhamos em mente o “grande mistério” envolvido na criação do homem como homem e mulher e a vocação de ambos ao amor conjugal[9]. De acordo com a analogia, o plano infinito de Deus é “se casar” conosco (cf. Os 2,19). Ele quis este plano infinito para estar tão presente para nós que ele estampou uma imagem Sua em nosso próprio ser criando-nos homens e mulheres e chamando-nos ao casamento.
(...)


[1] “Teologia do Corpo” de João Paulo II – uma coleção de 129 audiências proferidas entre setembro de 1979 e novembro de 1984 - João Paulo II fornece a mais extensa teologia bíblica do casamento.
[2] Gaudium et Spes, n. 49
[3] Para saber mais veja os livros de Christopher West, Good News About Sex &
Marriage (Servant, 2000) and Theology of the Body Explained (Pauline, 2003).
[4] Cf. Gaudium et Spes, n. 48 e Cód. de Direito Canônico, Can. 1055
[5] Cf. Gaudium et Spes, n. 49
[6] Gaudium et Spes, n. 48
[7] Catecismo da Igreja Católica, n. 1602
[8] Homilia na Festa da Sagrada Família, 30 de dezembro de 1988

Tradução e revisão: Fabrício L. Ribeiro
 Fonte: https://sites.google.com/a/teologiadocorpo.com.br/teologia-do-corpo/


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