terça-feira, 17 de novembro de 2015

A GRATIDÃO



Um coração agradecido

Com certeza você já conheceu algumas pessoas simples, de bom coração, que sabem agradecer sinceramente – sem servilismo nem afetação – tudo o que recebem de bom: “Obrigado, muito obrigado!” “Ótimo!” “Que beleza!” “Que bom que você se lembrou!…”. É uma delícia conviver com elas. Fazem a vida amável. São a antítese do tipo insuportável da pessoa que passa a vida reclamando de tudo.

O coração cristão – quando nele há fé e amor – está sempre cheio de gratidão. É tocante comprovar que, no escrito mais antigo do Novo Testamento, a primeira Carta de São Paulo aos Tessalonicenses (c. 50 d.C.), o agradecimento aparece como um traço básico do espírito cristão: Vivei sempre contentes. Orai sem cessar. Em todas as circunstâncias dai graças, porque esta é a vosso respeito a vontade de Deus em Jesus Cristo (1 Ts 5,16-18).

Repare como é significativo que o ato central do culto cristão muito cedo se tenha chamado “eucaristia”, que em grego significa “ação de graças”. De fato a Santa Missa – a reapresentação do Sacrifício redentor de Cristo –, foi celebrada desde os tempos mais antigos dentro de uma grande ação de graças: «Na verdade, ó Pai, Deus eterno e todo poderoso, é nosso dever dar-vos graças, é nossa salvação dar-vos glória, em todo tempo e lugar…» (Do Ordinário da Missa).

É lógico, pois a fé ilumina a vida do cristão com dois faróis potentíssimos:

─ Primeiro: a certeza de que Deus nos ama com loucura (cf. Jo 13,1 e 16,27 )

─ Segundo: a certeza de que Deus faz concorrer tudo – absolutamente tudo – para o bem daqueles que o amam (cf. Rm 8,28). «Dá-lhe graças por tudo, porque tudo é bom», escrevia, em consequência, São Josemaria (Caminho, n. 268).

Faz tempo, ouvi o comentário de um rapaz, que me pareceu uma boa definição do cristão: “o cristão é um contente agradecido”.

Contentes e agradecidos com o próximo

Um “contente agradecido” com Deus é facilmente um “contente agradecido” com o próximo.

Essa dimensão da gratidão para com os outros exige duas atitudes fundamentais.

A) Primeira atitude: Reconhecer

Só é “reconhecido” – sinônimo de agradecido – aquele que vê, que enxerga. Isso não é fácil. Lembre-se de que Cristo diz que há duas maneiras de olhar:

─ Felizes os olhos que veem o que vós vedes! (Lc  10,23). É a alegria de descobrir com a luz de Deus as maravilhas da vida e das pessoas.

─ Olhareis com vossos olhos e não vereis (Mt 13,14). É a cerração amarga dos que não sabem, não podem – por suas misérias – ou não querem ver.

Você sabe por que, com frequência, somos pouco agradecidos? Simplesmente porque “não vemos”, não vemos nem o “óbvio ululante” –como diria o Nelson Rodrigues – que está diante dos nossos olhos.

Ver, reconhecer, não é fácil. Há pessoas que, durante anos e anos, vivem sem se darem conta dos muitos benefícios que recebem, diariamente, daqueles que têm mais perto de si. Não são capazes de valorizar, por exemplo, a bênção que é para eles o carinho e a dedicação dos pais, ou – no caso dos esposos – o sacrifício constante, até mesmo heroico, da esposa ou do marido. Vivem como toupeiras, usufruindo da bondade e da generosidade dos que os cercam sem se aperceberem disso; e, o que é pior, tratando-os asperamente, sem manifestar quase nunca o seu agradecimento, esquecendo-se de lhes retribuir o carinho, reclamando a toda a hora.

Sejamos sinceros Por que temos essa cegueira ou, no mínimo, essa miopia? Há, pelo menos, três respostas:

1) Porque vivemos numa rotina tão monótona, que nunca se renovam os nossos sentimentos, nem o nosso modo de agir, nem as nossas amabilidades, nem as iniciativas, nem as delicadezas no trato. Essa rotina mortal – «sepulcro» a chamava São Josemaria – cobre com uma névoa escura até as coisas mais belas. É triste nos “acostumarmos” a ser queridos, a ser servidos, a ser ajudados até ao ponto de nem o percebermos. Cegados pela habituação, acabamos achando normais o afeto e as atenções dos outros, julgamos ter direito a tudo isso, e só pensamos em exigir mais. Falta-nos a “percepção clara, base da gratidão. Por isso somos desagradáveis e tornamos desagradável a vida aos demais.

O verdadeiro amor faz com que vejamos as coisas boas dos outros como uma luz cintilante – que os defeitos deles não conseguem ofuscar– , uma luz que pisca constantemente e acende em nós tantas alegrias. “Como é bom – pensamos, comovidos – que eles tenham essas coisas boas, que sejam bons, que nos amem, que sejam educados, que nos tratem bem, quer cuidem de nós”…

2) Também nos deixa cegos um preconceito egoísta: a obsessão de pensar só naquilo que as pessoas “deveriam ser” (e fazer) para corresponderem aos nossos gostos e desejos. Isso faz com que não nos demos conta do que elas “são” na realidade, dos valores, qualidades e virtudes reais, que possuem justamente porque são assim, “como são”, e não como gostaríamos que fossem. É o caso da mulher que diz: “Meu marido é bom, correto, afetuoso, dedicado”, mas eu gostaria que fosse…; e não há jeito, ele não muda. Com essa mentalidade, não pode ser agradecida, ou então só vai ter um reconhecimento formal: “Sim, claro, já sei que tem qualidades, MAS…” Aí está o problema: esse MAS, que paralisa o coração.

Se, com a ajuda de Deus, conseguíssemos vencer pouco a pouco o egoísmo «aprenderíamos – como escrevia São Josemaria – a descobrir muitas virtudes naqueles que nos rodeiam – dão-nos lições de trabalho, de abnegação, de alegria… –, e não nos deteríamos demasiado nos seus defeitos, a não ser quando fosse imprescindível para os ajudarmos com a correção fraterna».

3) A terceira venda que tapa os olhos é o ressentimento. Mágoas não superadas são como os vazamentos de óleo de um petroleiro no mar: grandes manchas que poluem as águas e nelas matam a vida. Já tratamos amplamente disso nos capítulos quinto e sexto. Não vamos repetir.

Para clarear a vista

Pense que há duas maneiras de clarear a vista, de “reconhecer” aqueles bens dignos de gratidão, que nós esquecemos ou desprezamos:

─ A primeira é inútil e dolorosa. Com as coisas boas dos outros pode acontecer-nos o mesmo que com o oxigênio: só quando nos falta é que tomamos consciência do seu imenso valor. Da mesma maneira, muitos só descobrem o valor do carinho, das atenções, da abnegação, da paciência dos outros, quando estes lhes faltam, quando morrem. Então veem, sim – entre remorsos e lágrimas –, o que antes não souberam visualizar… Uma gratidão tardia, que só podemos expressar rezando pela alma deles.

─ A segunda maneira é a boa: uma graça que devemos pedir a Deus, dispostos  a colaborar com ela. Consiste em esforçar-nos por viver cada vez mais perto de Deus – da Luz –, purificando os nossos defeitos com a luta e a contrição (a confissão humilde das nossas faltas!), e ganhando intimidade com o Senhor mediante a oração, a Eucaristia, a meditação da Palavra de Deus, o carinho por Nossa Senhora … Então poderemos pedir a Jesus, sinceramente, como São Josemaria: «Que eu veja com teus olhos!». Os que se empenham em viver com Deus, em ter “vida interior”, captam por experiência o que Jesus dizia: Se o teu olhar for são, todo o teu corpo estará iluminado. Se o teu olho estiver doente, todo o teu corpo estará nas trevas (Mt 6,22-23).

A) Segunda atitude: Retribuir

Pouco vamos comentar acerca disso. Façamos a[penas um simples exame de consciência, que responda a esta pergunta: Sei mostrar agradecimento aos outros pelas coisas boas que recebo deles, de modo diário, delicado e claro?

─ Como é bom dizer “muito obrigado”, “obrigado”, com simplicidade, mesmo perante atenções bem pequenas: por nos aproximarem um bule ou o açucareiro à mesa, ou por nos deixarem o lugar melhor para assistir tv, por prontificarem-se alegremente a desembrulhar um pacote que nos custa desamarrar, ou por adiantar-se a fazer uma compra para nós quando saem à rua, ou por abrir gentilmente a porta e ceder-nos a passagem, etc, etc.

─ Como é bom saber agradecer mediante pequenos gestos simpáticos: um sorriso unido a um olhar afetuoso (que pode valer mais que dez “obrigado”); ou um beijo agradecido; ou um telefonema ou mensagem oportunos; ou uma diminuto presente-surpresa; ou o esforço por mostrar-nos mais bem dispostos em tudo depois de recebermos um favor...

─ Como  é bom também aumentar o nosso espírito de serviço, a nossa solicitude prática pelos demais  – prestando-lhes serviços úteis –, à medida que nosso olho são consegue captar os contínuos benefícios recebidos e sente o impulso de retribuir.

─ Como é bom, para proporcionar aos outros as alegrias que merecem, colocar uma gota mais de carinho, de “alma”, de calor novo, nas fórmulas costumeiras, mil vezes repetidas, de saudar, acolher, despedir, etc.: “Bom dia”, “Boa noite”, “Como vai”, “Fica com Deus”, “Até mais”...

Acrescente por conta própria, para terminar, tantas outras belas coisas que o seu coração agradecido – cheio de “engenho e arte” – saberá descobrir e praticar.


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