sábado, 19 de março de 2016

Quando São José dorme



























Homilia de Bento XVI, quando ainda era cardeal, na Solenidade de São José

Queridos irmãs e irmãos:
Há pouco tempo vi em casa de uns amigos uma representação de S. José que me fez pensar muito. É um alto-relevo proveniente de um retábulo português da época barroca, em que se mostra a noite da fuga para o Egito. Vê-se uma tenda aberta, e, perto dela, um anjo de pé. Dentro da tenda, José está a dormir, mas vestido com a indumentária própria de um peregrino, calçado com botas altas, necessárias para uma caminhada difícil. Se na primeira impressão parece um pouco ingênuo que o viajante apareça também como adormecido, pensando melhor começamos a perceber o que a imagem nos quer sugerir.

Os silêncios
José dorme, é verdade, mas está simultaneamente disposto a ouvir a voz do anjo (Mt 2,13ss). Parece depreender-se da cena o que o Cântico dos Cânticos tinha proclamado: eu dormia, mas o meu coração estava vigilante (Cânt 5,2). Os sentidos exteriores repousam, mas o fundo da alma pode ser tocado. Nessa tenda aberta temos a representação do homem que, desde o mais profundo do seu ser, pode ouvir o que vibra no seu interior ou lhe é dito desde as alturas, do homem cujo coração está suficientemente aberto para receber aquilo que o Deus vivo e o seu anjo lhe querem comunicar. Nessa profundidade, a alma de qualquer homem pode encontrar-se com Deus. Nessa profundidade, Deus fala a cada um de nós e mostra-nos como está próximo.

Contudo, na maior parte das vezes encontramo-nos invadidos por cuidados, inquietações, expectativas e desejos de toda a espécie, tão repletos de imagens e carências produzidas pela vida de cada dia, que, por muito que vigiemos exteriormente, é-nos pedida a vigilância interior e, com ela, o som das vozes que nos falam desde o mais íntimo da alma. Esta está tão sobrecarregada e são tantas as muralhas erguidas no seu interior, que a voz suave do Deus próximo não consegue fazer-se ouvir. Com a chegada da Idade Moderna, os homens têm vindo a dominar cada vez mais o mundo e a dispor das coisas à medida dos seus desejos; mas estes avanços no nosso domínio sobre as coisas, e no conhecimento do que com elas podemos fazer, limitaram, por outro lado, a nossa sensibilidade, de tal maneira que o nosso universo se tornou unidimensional. Estamos dominados pelas nossas coisas, por todos os objetos que as nossas mãos alcançam, e que servem de instrumentos para produzir outros objetos. No fundo, não vemos outra coisa senão a nossa própria imagem, e estamos incapacitados para ouvir a voz profunda que, desde a Criação, nos fala também hoje da bondade e da beleza de Deus.

O sono de São José
Esse José que dorme, mas que ao mesmo tempo está preparado para ouvir o que ecoe no seu íntimo e desde o alto – porque não é outra coisa o que o Evangelho deste dia acaba de nos dizer -, é o homem em que se unem o recolhimento íntimo e a prontidão. A partir da tenda aberta da sua vida, convida a retirarmo-nos um pouco do bulício dos sentidos; para que recuperemos também nós o recolhimento; para que saibamos dirigir o olhar para o interior e para o alto, para que Deus possa tocar a nossa alma e comunicar-lhe a sua palavra. A Quaresma é um tempo especialmente adequado para nos afastarmos das vicissitudes quotidianas, e dirigirmos novamente os nossos passos pelos caminhos do interior.

Levanta-se e acolhe os planos de Deus
Passamos ao segundo ponto. Esse José que vemos pronto para se levantar e, como diz o Evangelho, cumprir a vontade de Deus (Mt 1,24; 2,14). Assim toma contato com o núcleo da vida de Maria, a resposta que ela ia dar no momento decisivo da sua existência: Eis aqui a serva do Senhor (Lc 1,38). São José reage assim: Aqui tens o teu servo! Dispõe de mim! A sua resposta coincide com a de Isaías no momento de receber o chamamento: Eis-me aqui, Senhor. Envia-me (Is 6,8, juntamente com 1 Sam 3,8ss). Esse chamamento preencherá toda a sua vida daqui em diante. Mas também há outro texto da Escritura que vem a propósito: o anúncio que Jesus faz a Pedro quando lhe diz: Levar-te-ão onde tu não queiras ir (Jo 21,10). José, com a sua celeridade, tomou-o como regra da sua vida: porque está preparado para se deixar conduzir, embora a direção não seja a que ele quer. Toda a sua vida é uma história desta correspondência.

Começou com a mensagem do anjo sobre o segredo da maternidade divina de Maria, o mistério da vinda do Messias. De repente, a ideia que tinha feito de uma vida discreta, simples e agradável, fica transtornada quando se sente associado à aventura de Deus entre os homens. Tal como sucedera no caso de Moisés perante a sarça ardente, encontrou-se face a face com um mistério em que lhe cabe ser testemunha e coparticipante. Muito brevemente saberá o que isso implica: que o nascimento do Messias não pode acontecer em Nazaré. Tem de partir para Belém, que é a cidade de David; porém, também não acontecerá aí: porque os seus não o receberam (Jo 1,11). Já aponta para a hora da Cruz: porque o Senhor terá de nascer fora de portas, num estábulo. Logo depois, chega a nova mensagem do anjo, a saída do Egito, onde irá sofrer a sorte dos que não têm casa nem pátria: refugiados, estrangeiros, desenraizados que procuram um lugar para se instalar com os seus.

Irá regressar, mas sem terem terminado os perigos. Mais tarde vai sofrer a dolorosa experiência dos três dias durante os quais Jesus está perdido (Lc 2,46), esses três dias que são como um presságio dos que mediarão entre a Cruz e a Ressurreição: dias em que o Senhor desapareceu e se sente o seu vazio. E, do mesmo modo que o Ressuscitado, não irá regressar para viver entre os seus com a familiaridade daqueles dias que terminaram. Pelo contrário, diz: Não me detenhas, pois ainda não subi para o Pai, e poderás estar comigo quando subires também (cf. Jo 20,17). Assim, agora, quando Jesus é encontrado no Templo, reaparece em primeiro plano o mistério de Jesus naquilo que ele tem de distanciamento, de ponderação e de grandeza. José sente-se, de certo modo, posto no seu lugar por Jesus, mas ao mesmo tempo encaminhado para o alto. Eu devia ocupar-me das coisas de meu Pai (Lc 2,19). É como se lhe dissesse: Tu não és meu pai, mas guardião que, ao ser-te confiada esta missão, recebeste o encargo de proteger o mistério da Encarnação.

E, finalmente, José morrerá sem ter visto manifestar-se a missão de Jesus. No seu silêncio ficarão sepultados todos os seus padecimentos e esperanças. A vida deste homem não foi como a daquele que, pretendendo a realização de si próprio, procura somente em si os recursos de que necessita para fazer da sua vida o que quer. Foi o homem que se nega a si mesmo, que se deixa levar para onde não queria ir. Não fez da sua vida coisa própria, mas algo para entregar. Não se deixou guiar por um plano que o seu intelecto tivesse concebido, e a sua vontade decidido, mas, respondendo aos desejos de Deus, renunciou à sua vontade para se entregar à de Outro, à vontade grandiosa do Altíssimo. E é exatamente nesta renúncia total a si próprio que o homem se descobre.

Porque a verdade é assim: somente se soubermos perder-nos, se nos dermos, podemos encontrar-nos. Quando isto sucede, não é a nossa vontade que prevalece, mas a do Pai à qual Jesus se submeteu: não se faça a minha vontade, mas a tua (Lc 22,42). E, tal como então, cumpre-se o que dizemos no Pai-Nosso: Seja feita a tua Vontade assim na terra como no Céu. Por isso S. José, com a sua renúncia, com o seu abandono, que de certo modo adiantava a imitação de Jesus crucificado, nos ensina os caminhos da fidelidade, da ressurreição e da vida.

Sempre a caminho
Falta-nos um terceiro aspecto: olhando para este José, que está vestido como peregrino, compreendemos que, a partir do momento do Mistério, a sua existência seria a de quem está sempre a caminho, num constante peregrinar. A sua vida foi assim uma vida marcada pelo sinal de Abraão: porque a História de Deus entre os homens, que é a história dos seus eleitos, começa com a ordem que o pai desta estirpe recebeu: Sai da tua terra para seres um estrangeiro (Gen 12,1; Heb 9,8ss). E por ter sido uma réplica da vida de Abraão, José aparece-nos como uma antevisão da existência do cristão. Podemos comprová-lo com particular vivacidade na primeira Carta de S. Pedro e na de Paulo aos Hebreus. Como cristãos que somos – dizem-nos os Apóstolos – devemos considerar-nos estrangeiros, peregrinos e hóspedes (1 Ped 1,17; 2,11; Heb 13,14): porque a nossa morada, ou como diz S. Paulo na sua Carta aos Filipenses, a nossa cidadania está nos Céus (Fil 3,20).

Hoje em dia, estas palavras sobre o Céu soam mal: porque tendemos a acreditar que afastar-nos de cumprir as nossas obrigações na terra nos aliena do nosso mundo. Tendemos a acreditar que a nossa vocação é somente fazer da Terra um Paraíso. Porém, acontece que na realidade, ao comportar-nos desse modo, o que estamos a fazer é precisamente destruir a Criação. Porque, no fundo, os anseios do homem apontam na direção do infinito. Daí que, hoje mais do que nunca, nos demos conta que unicamente Deus consegue saciar o homem por completo. Estamos feitos de tal forma, que as coisas finitas nos deixam sempre insatisfeitos, porque precisamos de muito mais: necessitamos do Amor inesgotável, da Verdade e da Beleza ilimitadas.

Embora esse anseio seja irreprimível, podemos retirá-lo dos nossos horizontes e procurarmos o infinito naquilo que não no-lo pode dar. Querendo ter o Céu já na terra, esperamos e exigimos tudo dela e da atual sociedade. Porém, na sua intenção de extrair do finito o infinito, o homem espezinha a terra e impossibilita uma ordenada convivência social com os outros, porque os vê como ameaça ou obstáculo. Somente quando aprendermos novamente a dirigir o nosso olhar para o Céu, brilhará também a terra em todo o seu esplendor. Só quando dermos vida às grandes esperanças dos nossos ânimos com a ideia de um eterno estar com Deus, e nos sentirmos novamente peregrinos a caminho da Eternidade, em vez de nos apegarmos a esta terra, só então os nossos anseios irradiarão para este mundo para que tenha também ele esperança e paz.

Por tudo isto, demos graças a Deus neste dia porque nos deu esse Santo, que nos fala de recolhimento com Ele; que nos ensina a prontidão e a obediência e a atitude dos caminhantes que se deixam dirigir por Deus; e que, por isso mesmo, nos diz a maneira de servir igualmente a nossa terra. Imploremos a graça para que, mostrando também nós vigilância e prontidão, sejamos um dia recebidos por Deus, que é o nosso autêntico destino de caminhantes.


Homilia do Cardeal Joseph Ratzinger, Roma, 19-03-1992

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