terça-feira, 26 de julho de 2016

O Pais Nosso

PRÓLOGO
I. As cinco qualidades requeridas para todas as orações.
1. — A Oração Dominical, entre todas, é a oração por excelência, pois possui as cinco qualidades requeridas para qualquer oração. A oração deve ser: confiante, reta, ordenada, devota e humilde.
2. — A oração deve ser confiante, como São Paulo escreve aos Hebreus (4, 16): Aproximemo-nos com confiança do trono da graça, a fim de alcançar a misericórdia e achar graça para sermos socorridos no tempo oportuno.
A oração deve ser feita com fé e sem hesitação, segundo São Tiago. (Tg 1,6): Se algum de vós necessita de sabedoria, peça-a a Deus... Mas peça-a com fé e sem hesitação.
Por diversas razões, o Pai Nosso é a mais segura e confiante das orações. A Oração Dominical é obra de nosso advogado, do mais sábio dos pedintes, do possuidor de todos os tesouros de sabedoria (cf. Cl 2, 3), daquele de quem diz São João (I, 2, 1): Temos um advogado junto ao pai: Jesus Cristo, o Justo. São Cipriano escreveu em seu Tratado da oração dominical: «Já que temos o Cristo como advogado junto ao Pai, por nossos pecados, em nossos pedidos de perdão, por nossas faltas, apresentemos em nosso favor, as palavras de nosso advogado».
A Oração Dominical parece-nos também que deve ser a mais ouvida porque aquele que, com o Pai, a escuta é o mesmo que no-la ensinou; como afirma o Salmo 90 (15): Ele clamará por mim e eu o escutarei. «É rezar uma prece amiga, familiar e piedosa dirigir-se ao
Senhor com suas próprias palavras» diz São Cipriano. Nunca se deixa de tirar algum fruto desta oração que, segundo santo Agostinho, apaga os pecados veniais.
3. — Nossa oração deve, em segundo lugar, ser reta, quer dizer, devemos pedir a Deus os bens que nos sejam convenientes. «A oração, diz São João Damasceno, é o pedido a Deus dos dons que convém pedir».
Muitas vezes, a oração não é ouvida por termos implorado bens que verdadeiramente não nos convêm. «Pediste e não recebeste, porque pediste mal», diz São Tiago. (4,3).
É tão difícil saber com certeza o que devemos pedir, como saber o que devemos desejar. O Apóstolo reconhece, quando escreve aos Romanos (8, 26): Não sabemos pedir como convém, mas (acrescenta), o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis.
Mas não é o Cristo que é nosso doutor? Não foi ele que nos ensinou o que devemos pedir, quando seus discípulos disseram: Senhor, ensinai-nos a rezar? (Lc 11, 1).
Os bens que ele nos ensina a pedir, na oração, são os mais convenientes. «Se rezamos de maneira conveniente e justa, diz Santo Agostinho, quaisquer que sejam os termos que empregamos, não diremos nada mais do que o que está contido na Oração Dominical».
4. — Em terceiro lugar, a oração deve ser ordenada, como o próprio desejo que a prece interpreta.
A ordem conveniente consiste em preferirmos, em nossos desejos e preces, os bens espirituais aos bens materiais, as realidades celestes às realidades terrenas, de acordo com a recomendação do Senhor (Mt, 6,33): Procurai primeiro o reino de Deus e sua justiça e o resto — o comer, o beber e o vestir — ser-vos-á dado por acréscimo.
Na Oração Dominical, o Senhor nos ensina a observar esta ordem: primeiro pedimos as realidades celestes e em seguida os bens terrestres.
5. — Em quarto lugar, a oração deve ser devota.
A excelência da devoção torna o sacrifício da oração agradável a Deus. Em vosso nome, Senhor, elevarei minhas mãos, diz o Salmista, e minha alma é saciada como de fino manjar.
A prolixidade da oração, no mais das vezes, enfraquece a devoção; também o Senhor nos ensina a evitar essa prolixidade supérflua: Em vossas orações não multipliqueis as palavras; como fazem os pagãos, (Mt 6,7). S. Agostinho recomenda, escrevendo a Proba: «Tirai da oração a abundância de palavras; no entanto não deixeis de suplicar, se vossa atenção continua fervorosa».
Esta é a razão pela qual o Senhor instituiu a breve oração do Pai Nosso.
6. — A devoção provém da caridade, que é o amor de Deus e do próximo. O Pai Nosso é uma manifestação destes dois amores.
Para mostrar nosso amor a Deus, o chamamos «Pai» e para mostrar nosso amor ao próximo, pedimos por todos os homens justos, dizendo: «Pai nosso», e empurrados pelo mesmo amor, acrescentamos: «perdoai as nossas dívidas»,
7. — Em quinto lugar, nossa oração deve ser humilde, segundo o que diz o Salmista (Sl 101, 18): Deus olhou para a prece dos humildes
Uma oração humilde é uma oração que certamente será ouvida, como nos mostra o Senhor, no evangelho do Fariseu e do Publicano (Lc 18, 9-15) e Judite, rogando ao Senhor, dizia: Vós sempre tivestes por agradável a súplica dos humildes dos mansos.
Esta humildade está presente na Oração Dominical, pois a verdadeira humildade está naquele que não confia em suas próprias forças, mas tudo espera do poder divino.
II. Os bons efeitos da oração.
8. — Notemos que a oração produz três espécies de bens.
Primeiramente, constitui um remédio eficaz contra todos os males. Livra-nos dos pecados cometidos: «Remistes, Senhor, a iniqüidade de meu pecado, diz o Salmista (Sl 31,5-6) por isso todo homem santo dirigirá a Vós sua prece». Assim pediu o ladrão sobre a cruz e obteve seu perdão, pois Jesus lhe respondeu: «Em verdade vos digo, hoje mesmo estareis comigo no paraíso». (Lc 23,43), Do mesmo modo rezou o publicano e voltou para casa justificado (cf. Lc 18,14).
A oração nos liberta do medo dos pecados que virão, das tribulações e da tristeza. Alguém está triste entre vós? Reze com a alma tranqüila (Tg 5,3).
A oração nos livra das perseguições dos inimigos. Está escrito no Salmo 108, 4: Em resposta ao meu afeto me fizeram mal; eu, porém, orava.
9. — Em segundo lugar, a oração é um meio útil e eficaz para a realização de todos os nossos desejosTudo o que pedirdes na oração, diz Jesus, crede, recebereis. (Mc 11,24)
Se não somos atendidos, será porque — ou não pedimos com insistência: é preciso rezar sem descanso (Lc 18, 1) — ou então não pedimos o que é mais útil à nossa salvação. «O Senhor é bom, diz Santo Agostinho, muitas vezes não nos concede o que queremos, para nos dar os bens, que desejaríamos receber, se nossa vontade estivesse bem de acordo com a sua divina vontade». São Paulo é exemplo disso, pois, por três vezes, pediu para ficar livre de um forte sofrimento em sua carne e não foi atendido (cf. II Cor 12,8).
10. — Em terceiro lugar a oração é útil, porque nos torna familiares de Deus. Que minha oração suba até vós, como a fumaça do incenso, diz o Salmista (Sl 140, 2).
A ORAÇÃO DOMINICAL
PAI NOSSO
11. — Perguntamos: como é que Deus é Pai? E quais são nossas obrigações para com Ele devido à sua paternidade?
Chamamo-lo Pai, por causa do modo especial com que nos criou. Criou-nos à sua imagem e semelhança, imagem e semelhanças estas, que não imprimiu em nenhuma outra criatura inferior ao homem. Não é ele teu Pai, teu Criador que te estabeleceu? (Dt 32, 6).
Deus merece também o nome de Pai, por causa da solicitude particular que tem para com os homens no governo do universo. Nada escapa ao seu governo, sendo este exercido de modo diferente em relação a nós e em relação às criaturas inferiores a nós. Os seres inferiores são governados como escravos e nós como senhores. Ó Pai, diz o livro da Sabedoria (14, 3), vossa providência rege e conduz todas as coisas; e (12, 18) a nós governa com indulgência.
Deus, enfim, tem direito ao nome de Pai, porque nos adotou. Enquanto não deu, às outras criaturas, senão pequenas dádivas, a nós fez o dom de sua herança, e isso porque somos seus filhos. São Paulo diz (Rm 8, 17): Porque somos seus filhos, somos também seus herdeiros, e ainda (vers. 15): Vós não recebestes um espírito de servidão, para recairdes no temor, mas recebestes um espírito de adoção, que nos faz clamar: Abba, Pai.
12. — Em primeiro lugar, devemos honrá-lo. Se sou Pai, diz o Senhor, por Malaquias, (1,6) onde está a minha honra?
Esta honra consiste em três coisas: a primeira em relação aos nossos deveres para com Deus; a segunda, nossos deveres para conosco mesmos; a terceira, nossos deveres para com o próximo.
A honra devida ao Senhor consiste, primeiramente, em oferecer a Deus o dom do louvor, seguindo o que está escrito (Sl 49, 23): O sacrifício de louvor me honrará. Este louvor deve estar não só nos lábios, como no coração. Está escrito em Isaías (29,13): Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim.
A honra devida a Deus, em segundo lugar, consiste na pureza de nossos corpos, pois o Apóstolo escreveu: (1 Cor 6, 20) Glorificai e trazei a Deus em vosso corpo.
Consiste, enfim, esta honra, na equidade de nossos julgamentos para com o próximo. O Salmo 98, 4 diz: Honrar o rei é amar a justiça.
13. — Em segundo lugar, devemos imitar Deus, porque ele é nosso Pai. Diz o Senhor, em Jeremias: (3, 9) chamar-me-eis Pai, e não deixareis de andar atrás de mim.
A imitação para ser perfeita requer três coisas.
A primeira é o amor. Diz São Paulo (Ef 5, 1-2): Sede imitadores de Deus, como filhos bem amados, e caminhai no amor. Este amor deve ser encontrado em nosso coração.
A segunda é a misericórdia. O amor deve ser acompanhado da misericórdia, segundo a recomendação de Jesus (Lc 6, 36): sede misericordiosos. E essa misericórdia deve mostrar-se nas obras.
A terceira é a perfeição, porque o amor e a misericórdia devem ser perfeitos. Foi, com efeito, depois de falar da disposição e das obras servis, que o Senhor diz, no Sermão da Montanha, (Mt 5, 48) Sede perfeitos, como vosso Pai celestial é perfeito.
14. — Em terceiro lugar, devemos obediência a nosso Pai. Se nossos pais segundo a carne nos castigam e nós os respeitamos, por mais forte razão devemos submeter-nos ao Pai dos espíritos, diz São Paulo (Heb 12,9).
A obediência é devida ao Pai celeste por causa de seu domínio soberano, sendo Ele o Senhor por excelência. Já os Hebreus, ao pé do monte Sinai, declararam a Moisés (Ex 24, 7):Tudo o que disse o Senhor nós o faremos e obedeceremos.
Nossa obediência está também fundada no exemplo de Cristo que, sendo o verdadeiro Filho de Deus, se fez obediente até à morte (Fp 2, 8).
Por fim obedecemos por interesse próprio. David dizia de Deus: Tocarei diante do Senhor que me escolheu (2 Rs 6,12).
15. — Em quarto lugar e sempre, porque Deus é nosso Pai, devemos ser pacientes, quando ele nos castiga. Meu filho, dizem os Provérbios (3, 11-12), não rejeites a correção do Senhor; nem desanimes, quando Ele te corrige. O Senhor castiga àquele que ama e se compraz nele como um Pai com seu filho.
16. — O Senhor nos prescreveu dirigirmo-nos a seu Pai, na Oração Dominical, não somente como «Pai», mas também como «Pai nosso», Fazendo isto, mostrou quais são nossos deveres para com nossos próximos.
A nossos próximos, devemos primeiramente o amor, porque são nossos irmãos; todos somos filhos de Deus. Quem não ama seu irmão a quem vê, diz São João (I, 4,20), como pode amar a Deus a quem não vê?
Em segundo lugar, devemos respeito a nossos semelhantes. Temos um único Pai, diz Malaquias (2, 10). Não foi um só Deus que nos criou? Por que haverás de desprezar teu irmão? E São Paulo escreve aos Romanos (12-10): Cuidai de respeitar-vos uns aos outros.
A realização desde duplo dever nos proporciona os mais desejáveis frutos, pois o Cristo, nos escreve São Paulo (Heb 5,9) é, para todos os que lhe obedecem, princípio de salvação eterna.

 SERMÕES DE S. TOMÁS DE AQUINO

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