terça-feira, 19 de julho de 2016

O que fazer para evitar o purgatório?


Certa vez, durante um dos muitos programas que apresentou em vida, perguntaram a Madre Angélica — a fundadora do grupo EWTN que morreu no último domingo — o que era necessário fazer para ir direto para o Céu, sem passar pelo purgatório. No vídeo acima, você pode conferir o que ela respondeu.
Segundo Madre Angélica, o segredo para "pular" o purgatório estava em fazer a vontade de Deus no momento presente. A biografia da religiosa, escrita pelo jornalista norte-americano Raymond Arroyo, mostra a "santa obsessão" que essa mulher tinha com o momento presente. Sem chorar pelo passado nem inquietar-se com o futuro, Madre Angélica se lançava com toda determinação aos projetos que Deus colocava diante de si, mesmo que não conseguisse enxergar o destino ao qual ela era levada. "Nós damos o nosso melhor para usar os talentos que possuímos e deixamos os resultados para Deus", ela dizia. "Ficamos em paz sabendo que Ele se compraz com os nossos esforços e que a Sua providência cuidará dos frutos desses esforços."
O raciocínio dessa religiosa não é nada simplório. Ao contrário, encontra-se em pleno acordo com o ensinamento dos santos da Igreja. Para mostrar essa continuidade de pensamento, vamos recorrer a dois santos dos tempos modernos: Santa Teresinha do Menino Jesus e São Josemaría Escrivá.
Comecemos pela carmelita de Lisieux. Há uma poesia de sua autoria, chamada Meu Canto de Hoje, em que Santa Teresinha lembra que só tem "o momento presente" para amar a Deus e cumprir a Sua vontade:
"Minha vida é um instante, um rápido segundo,
Um dia só que passa e amanhã estará ausente;
Só tenho, para amar-Te, ó meu Deus, neste mundo,
O momento presente!..." 
[...] 
"Se penso no amanhã, temo ser inconstante,
Vejo nascer em meu coração a tristeza e o enfado.
Eu quero, Deus meu, o sofrimento, a prova torturante
Agora, no presente!" [1]
Para entender com profundidade o que Santa Teresinha quer dizer, vale a pena assistir ao vídeo Como progredir na caridade?, do nosso programa "Direção Espiritual". Nele, Padre Paulo explica que o hoje é o único momento com consistência ontológica — o ontem já se foi, o amanhã é incerto —, pelo que devemos amar a Deus no agora, sem preocupar-nos com o que passou ou com o que virá. Trata-se da base para a constante lembrança da morte que a Igreja recomenda aos seus filhos. "Memento homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris — Lembra-te, ó homem, que és pó, e ao pó hás de voltar". Não há nada tão certo quanto a morte e, ao mesmo tempo, nada tão incerto quanto o momento em que ela nos apanhará. Devemos estar sempre preparados e vigilantes.
Ensina também o fundador do Opus Dei, São Josemaría Escrivá, em vários pontos de seus livros:
"A santidade 'grande' está em cumprir os 'deveres pequenos' de cada instante." (Caminho, 817)

"Esforça-te por corresponder, em cada instante, ao que Deus te pede: deves ter vontade de amá-Lo com obras. - Com obras pequenas, mas sem deixar nem uma." (Forja, 82)

"Não sejas comodista! Não esperes pelo Ano Novo para tomar resoluções: todos os dias são bons para as decisões boas. 'Hodie, nunc!' - Hoje, agora! Costumam ser uns pobres derrotistas aqueles que esperam pelo Ano Novo para começar, porque, além disso, depois... não começam!" ( Forja, 163)

"A nossa vida - a dos cristãos - deve ser tão vulgar como isto: procurar fazer bem, todos os dias, as mesmas coisas que temos obrigação de viver; realizar no mundo a nossa missão divina, cumprindo o pequeno dever de cada instante." ( Forja, 616)

"'Nunc coepi!' - agora começo! É o grito da alma apaixonada que, em cada instante, quer tenha sido fiel, quer lhe tenha faltado generosidade, renova o seu desejo de servir - de amar! - o nosso Deus com uma lealdade sem brechas." ( Sulco, 161)

"O Senhor tem o direito - e cada um de nós a obrigação - de que O glorifiquemos "em todos os instantes". Portanto, se desperdiçamos o tempo, roubamos glória a Deus." ( Sulco, 508)

"O verdadeiro cristão está sempre disposto a comparecer diante de Deus. Porque, em cada instante - se luta por viver como homem de Cristo -, encontra-se preparado para cumprir o seu dever." ( Sulco, 875)
Ainda mais numerosas são as referências do "santo do quotidiano" à vocação universal à santidade — ser santos no meio do mundo! —, coisa em que a própria Madre Angélica insistia em seus programas na TV. As frases acima, no entanto, são material suficiente para meditação por toda a vida e, principalmente, para o nosso exame diário de consciência.
No fundo, o caminho da perfeição continua sempre o mesmo. Embora a perda de tempo e o vício da curiosidade tenham sido popularizados pelas redes sociais — como o Facebook, o WhatsApp e o Snapchat —, é preciso resistir, não simplesmente como quem jejua durante a Quaresma, mas como alguém que busca verdadeiramente a santidade. Quando nos custar, lembremo-nos de São Josemaría Escrivá — desperdiçar o tempo é roubar glória a Deus! — e comecemos a valorizar a vontade divina não amanhã ou na semana que vem, mas no momento presente, que é o único instante que temos para amá-Lo.

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