quarta-feira, 27 de julho de 2016

Que estais no céu

17. — Entre as disposições necessárias àquele que reza, a confiança tem uma importância considerável. Quem pede alguma coisa a Deus, diz São Tiago, (1,6) faça-o com confiança e sem hesitação.
O Senhor, no princípio da Oração que nos ensinou, expõe os motivos que fazem nascer a confiança.
Primeiro, a complacência do Pai: Pai Nosso. Depois, diz o Senhor (Lc 11, 13): Vós que sais maus, sabeis dar coisas boas a vossos filhos; quanto mais dará vosso Pai celeste, do alto dos céus, àqueles que lhe pedem, seu bom Espírito.
Um outro motivo de confiança é a grandeza e o poder do Pai, o que nos faz dizer ao Senhor não apenas Pai nosso, mas Pai nosso que estais no céu. O Salmista também diz: (Sl 122, 1)Elevei meus olhos para vós que habitais nos céus.
18. — O Senhor usou a expressão que estais no céu por três razões diferentes.
Em primeiro lugar, esta expressão tem por objeto preparar a oração, como nos recomenda o Eclesiástico (18, 23): Antes da oração, preparai vossas almas. Seguramente, o pensamento de que nosso Pai está nos céus, isto é, na glória celeste, nos prepara para lhe dirigirmos nossas súplicas.
Na promessa do Senhor a seus Apóstolos (Mt 5, 12): vossa recompensa será grande nos céus, a expressão «nos céus» tem igualmente o sentido de «na glória celeste».
A preparação da oração se realiza pela imitação das realidades celestes, pois o filho deve imitar seu pai. Assim, São Paulo escreve aos Coríntios (I, 15,49): Como revestimos a imagem do homem terrestre, é preciso também revestirmos a imagem do homem celeste.
A preparação para a oração requer também a contemplação das coisas celestes. Os homens têm por hábito dirigir freqüentemente o pensamento para o lugar onde está seu pai e onde se acham os outros seres, objetos de seu amor, segundo a palavra do Senhor (Mt 6, 21): Lá onde está o teu tesouro, também está teu coração. Foi por isso que o Apóstolo escreveu aos Filipenses (3,20): Nos céus está a nossa morada.
A preparação da oração reclama, enfim, que aspiremos às coisas celestes. Àquele que está nos céus devemos pedir coisas celestes, como nos diz São Paulo (Cl 3, 1): Procurai as coisas do alto, lá onde está o Cristo.
19. — Em segundo lugar, as palavras «Pai nosso que estais no céu» podem significar a facilidade que tem Deus de ouvir as nossas preces, porque está próximo de nós. Aquelas palavras significam então: Pai nosso que estais nos santos. Com efeito, Deus habita nos santos.
Jeremias diz (14, 9): Senhor, Vós estais em nós. Os santos são realmente chamados «céus», segundo essas palavras do Salmo 18,12: «Os céus proclamam a glória de Deus».
Ora, Deus habita nos santos pela fé. São Paulo escreve aos Efésios (3, 17): Que Cristo habite em vossos corações pela fé.
Deus também mora nos santos pela caridade. Aquele que habita na caridade, diz São João (I, 4, 16), habita em Deus e Deus nele.
Deus mora ainda nos santos pela realização dos mandamentos. Se alguém me ama, declara o Senhor (Jo 14,23), guarda minha palavra e nós viremos a ele e nele faremos nossa morada.
20. — Em terceiro lugar, «que estais nos céus» se refere à eficácia do Pai ao nos ouvir. Neste caso a palavra «céus» designa céus materiais e visíveis; não que queiramos dizer, com isso, que Deus está encerrado no céu corpóreo, pois está escrito (2 Rs 18, 27): Eis que os céus e os céus dos céus não vos podem conter; mas estas palavras «que estais nos céus» mostram:
a) que Deus, por seu olhar, é clarividente e penetrante, porque vê do alto. Ele olhou de sua santa altura, diz o Salmo 101,20;
b) que Deus é sublime em seu poder, segundo a palavra do Salmista (102, 19): O Senhor dispôs seu trono, nos céus;
c) que Deus é estável em sua eternidade, segundo outras palavras (Sl 101, 13 e 28): Senhor, permaneceis eternamente e vossos anos, não têm fim. Por isto, diz-se de Cristo (Sl 88, 30): Seu trono é como o dia do céu, isto é, sem fim, como a duração do que é celeste. E o Filósofo confirma, com sua autoridade, a justeza desta comparação, quando faz notar em seu tratado «do céu»: «Por causa de sua incorruptibilidade, o céu é olhado por todos, como sendo a morada dos puros espíritos».
21. — Estas palavras «que estais nos céus» dirigidas ao Pai, no momento da oração, nos dão um triplo motivo de confiança, que repousa:
a) sobre o poder de Deus;
b) sobre a amizade de Deus, que nós invocamos;
c) sobre a conveniência de nosso pedido.
a) O poder do Pai que nós imploramos nos é sugerido pela expressão: «que estais nos céus», se por céus compreendermos os céus materiais e visíveis. Sem dúvida, Deus não está encerrado nos céus materiais, pois nos diz em Jeremias (23, 24): Encho o céu e a terra; diz-se, entretanto, «estais nos céus» para insinuar a virtude de sua natureza.
22. — Contra aqueles que afirmam que tudo vem necessariamente pela influência dos corpos celestes e negam a utilidade de se pedir qualquer coisa a Deus pela oração — como são tolos! — dizemos a Deus: «que estais nos céus» e ali está, por virtude de Seu poder, como Senhor dos céus e das estrelas, seguindo a palavra do Salmo (102, 19): O Senhor preparou seu trono nos céus.
23. — E também contra aqueles que em suas preces constroem e compõem imagens corpóreas de Deus, é na intenção deles que dizemos: «que estais nos céus». Desta sorte: pelo que há de mais elevado nas coisas sensíveis, nós lhes mostramos a sublimidade de Deus, que ultrapassa a tudo, incluindo o desejo e a inteligência dos homens, e assim tudo que se possa pensar e desejar é inferior a Deus. É por isto que está escrito no livro de Jó (32, 26): Deus é grande e ultrapassa nossa ciência, e no livro dos Salmos (Sl 112, 4): O Senhor se elevou acima de todas as nações. E Isaías declara (40, 18): A quem tendes vós assemelhado Deus?
24. — b) Muitos disseram que Deus, pelo fato de estar tão alto, não cuida das coisas humanas. É preciso, ao contrário, pensar que Ele está próximo de nós, e que está intimamente presente em nós. Esta familiaridade de Deus com o homem nos é apontada pelas palavras da Oração Dominical «que estais nos céus», se as entendemos assim: «vós que estais nos santos». Os santos são os céus, segundo a palavra do salmista (18,2): os céus mostram a glória de Deus e também Jeremias (14,9): Estais no Senhor.
25. — Esta intimidade de Deus com os homens nos inspira dois motivos de confiança quando rezamos ao Senhor.
O primeiro se apóia nesta proximidade divina que o Salmista mostra nas palavras (14, 4, 18): O Senhor está próximo dos que o invocam. Por isto o Senhor nos dá o aviso (Mt. 6, 6):Quando rezardes entrai em vosso quarto, quer dizer, no interior de vosso coração.
O segundo repousa no patrocínio dos santos. Por sua intercessão, podemos obter o que pedimos. (Jó 5, 1): Dirigi-vos a qualquer dos santos e São Tiago (5, 16): Rogai uns pelos outros, para que sejais salvos.
26. — c) Se, quando dizemos ao Pai celeste,: Vós que estais nos céus, pensamos que céus designam os bens espirituais e eternos, objeto de bem-aventurança, então nosso desejo das coisas celestes se inflama. Nosso desejo deve inclinar-se para onde está nosso Pai, pois lá também está nossa herança. São Paulo diz aos fiéis: Procurai os bens do alto (Cl 3, 1) e São Pedro (1, 1, 4) nos fala desta herança incorruptível, que nos está reservada nos céus.
O pensamento de que o Pai é nosso Bem espiritual eterno, objeto de nossa bem-aventurança, nos convida, com força, a levarmos uma vida celeste, a fim de nos tornarmos conforme o nosso Pai. Como é o celeste, assim também serão os celestiais, declara o Apóstolo (1 Cor 15, 18).
Estas duas coisas, o desejo da bem-aventurança do céu e o levar nesta terra uma vida celestial — nos predispõem incontestavelmente a rezar com devoção ao Senhor e dirigir-lhe uma oração digna de sua Majestade.
27. — Este é o primeiro pedido, no qual pedimos que o nome de Deus seja manifestado em nós e por nós proclamado.
Ora, o nome de Deus é antes de tudo, admirável, porque em todas as criaturas opera obras maravilhosas. O Senhor declara no Evangelho (Mc 16,17): Em meu nome, expulsarão os demônios, falarão novas línguas, e se beberem algum veneno mortal, este não lhes fará mal algum.
28. — Em segundo lugar, o nome de Deus é amável. «Não existe debaixo do céu, diz São Pedro (At 4, 12) nenhum outro nome, entre os que foram dados aos homens, que possa salvar-nos». E a salvação deve ser buscada por todos. Santo Inácio dá-nos o exemplo do quanto devemos amar o nome de Cristo. Quando o imperador Trajano exigiu que ele negasse o nome de Cristo, Santo Inácio respondeu: «Não podereis arrancá-lo de minha boca». O tirano ameaçou cortar-lhe a cabeça e assim tirar o nome de Cristo de seus lábios; replicou o bem-aventurado: «Não o arrancarás jamais de meu coração, pois é lá que está gravado, por isto não posso deixar de invocá-lo». Ouvindo estas palavras, Trajano, desejoso de verificar-lhes a exatidão, mandou cortar a cabeça do servidor de Deus e extrair-lhe o coração. E no coração encontrou gravado, com letras de ouro o nome de Cristo. O santo possuía este nome como um selo em seu coração.
29. — Em terceiro lugar, o nome de Deus é venerável. O Apóstolo afirma (Fp 2, 10): Que ao nome de Jesus se dobrem todo joelho no céu, na terra e nos infernos; no céu, no mundo dos anjos e bem-aventurados; na terra, tanto os homens, que querem a glória celeste, como os que, por temerem o castigo, buscam evitá-lo; nos infernos, no mundo dos danados, que estes se prostrem com temor diante de Jesus Cristo.
30. — Em quarto lugar, o nome de Deus é inexprimível, no sentido de que nenhuma língua é capaz de exprimir toda a sua riqueza.
Tenta-se, no entanto, explicá-la pelas criaturas. Assim, dá-se a Deus o nome de rochedo, por causa de sua firmeza. E notemos que se o Senhor deu a Simão, futuro fundamento da Igreja, o nome de Pedra (Mc 3, 16) foi precisamente porque sua fé, na divindade de Jesus, (cf. Mt 16, 18) devia fazê-lo participar de sua firmeza divina.
Designa-se Deus também pelo nome de fogo, em razão de sua virtude purificadora. Assim como o fogo purifica os metais, Deus purifica o coração dos pecadores. Assim está no Deuteronômio (4, 24): Vosso Deus é um fogo que consome.
Deus é também chamado luz, por causa de sua capacidade de iluminar. Como a luz ilumina as trevas, Deus ilumina as trevas do espírito. O Salmista, em sua oração, diz ao Senhor (17, 29): Meu Deus, iluminai as minhas trevas.
31. — Pedimos então que este nome seja manifestado, conhecido e tido por santo.
A palavra santo tem três significações:
Primeiramente, santo que dizer firme, sólido, inabalável. Assim, todos os Bem-aventurados que habitam os céus são chamados santos, porque se tornaram, pela felicidade eterna, inabaláveis. Neste sentido não há santos neste mundo, porque os homens estão, aqui, em constante movimento. «Senhor, dizia Santo Agostinho, afastei-me de vós e andei errante; afastei-me de vossa estabilidade
32. — Santo, em segundo lugar, significa: o que não é terrestre. Por isto, os santos que vivem no céu não têm afeição alguma pelas coisas terrestres. Tenho tudo em conta de imundices, para ganhar a Cristo, dizia São Paulo (Fp 3, 8). Pela palavra terra, designam-se os pecadores.
Primeiro porque, se não é cultivada, germinam nela espinhos e cardos, como está escrito no Gênesis (3, 8). Assim, também a alma do pecador, se não é cultivada pela graça, só produzirá os espinhos e os cardos do pecado.
Segundo, a terra é obscura e opaca, símbolo dos pecadores. Diz o Gênesis (1, 2): As trevas cobriram a face do abismo.
Terceiro, a terra, se não é aglutinada pela água, divide-se, desagrega-se, pulveriza-se, torna-se seca, pois o Senhor estabeleceu a terra sobre as águas, como diz o Salmista (Sl 135, 6):Deus firmou a terra sobre as águas. Assim a umidade da água remedeia a aridez da terra. A alma do pecador, privada da água, não passa de uma alma seca e árida, como constata o Salmo 142, 6: Minha alma é como a terra sem água.
33. - Enfim, santo, em terceiro lugar, significa «tinto de sangue». Também os santos que estão no céu são chamados santos, porque estão tintos de sangue, segundo o Apocalipse (7, 14): Estes são os que vieram da grande tribulação e lavaram suas vestes, no sangue do Cordeiro. Também diz o Apocalipse (1, 5): Jesus Cristo que nos amou e nos lavou dos nossos pecados, no seu sangue.

 SERMÕES DE S. TOMÁS DE AQUINO     

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