segunda-feira, 29 de agosto de 2016

São João Batista


Estimados irmãos e irmãs

Hoje celebra-se a memória do martírio de são João Baptista, o precursor de Jesus. No Calendário romano, é o único santo do qual se celebra tanto o nascimento, a 24 de Junho, como a morte ocorrida através do martírio. A memória hodierna remonta à dedicação de uma cripta de Sebaste, em Samaria onde, já em meados do século IV, se venerava a sua cabeça. Depois, o culto alargou-se a Jerusalém, às Igrejas do Oriente e a Roma, com o título de Degolação de são João Baptista. No Martirológio romano faz-se referência a uma segunda descoberta da preciosa relíquia, transportada naquela ocasião para a igreja de São Silvestre em Campo Márcio, em Roma.

Estas breves referências históricas ajudam-nos a compreender como é antiga e profunda a veneração de são João Baptista. Nos Evangelhos realça-se muito bem o seu papel em relação a Jesus. De modo particular, são Lucas narra o seu nascimento, a sua vida no deserto e a sua pregação, e no Evangelho de hoje são Marcos fala-nos da sua morte dramática. João Baptista começa a sua pregação sob o imperador Tibério, em 27-28 d.C., e o convite claro que ele dirige ao povo que acorre para o ouvir é que prepare o caminho para receber o Senhor, e endireitem as veredas tortas da própria vida através de uma conversão radical do coração (cf. Lc 3, 4). Contudo, João Baptista não se limita a pregar a penitência e a conversão mas, reconhecendo Jesus como «o Cordeiro de Deus» que veio para tirar o pecado do mundo (cf. Jo 1, 29), tem a profunda humildade de mostrar em Jesus o verdadeiro Enviado de Deus, pondo-se de lado a fim de que Jesus possa crescer, ser ouvido e seguido. Como último gesto, João Baptista testemunha com o sangue a sua fidelidade aos mandamentos de Deus, sem ceder nem desistir, cumprindo a sua missão até ao fim. São Beda, monge do século IX, nas suas Homilias diz assim: «São João, por [Cristo] deu a sua vida; embora não lhe tenha sido imposto que negasse Jesus Cristo, só lhe foi imposto que não dissesse a verdade» (cf. Hom. 23: ccl 122, 354). E ele dizia a verdade, e assim morreu por Cristo, que é a Verdade. Precisamente pelo amor à Verdade, não cedeu a compromissos nem teve medo de dirigir palavras fortes a quantos tinham perdido o caminho de Deus.

Nós vemos esta grande figura, esta força na paixão, na resistência contra os poderosos. Interroguemo-nos: de onde nasce esta vida, esta interioridade tão forte, tão recta e tão coerente, empregue totalmente por Deus e para preparar o caminho para Jesus? A resposta é simples: da relação com Deus, da oração, que é o fio condutor de toda a sua existência. João é o dom divino longamente invocado pelos seus pais, Zacarias e Isabel (cf. Lc 1, 13); uma dádiva grande, humanamente inesperada, porque ambos eram de idade avançada e Isabel era estéril (cf. Lc 1, 7); mas a Deus nada é impossível (cf. Lc 1, 36). O anúncio deste nascimento verifica-se precisamente no contexto da oração, no templo de Jerusalém; aliás, acontece quando Zacarias recebe o grande privilégio de entrar no lugar mais sagrado do templo para fazer a oferta do incenso ao Senhor (cf. Lc 1, 8-20). Também o nascimento de João Baptista é marcado pela oração: o cântico de alegria, de louvor e de acção de graças que Zacarias eleva ao Senhor e que nós recitamos todas as manhãs nas Laudes, o «Benedictus», exalta a obra de Deus na história e indica profeticamente a missão do filho João: preceder o Filho de Deus que se fez carne, para lhe preparar as estradas (cf. Lc 1, 67-79). Toda a existência do precursor de Jesus é alimentada pela relação com Deus, de modo particular o período transcorrido em regiões desertas (cf. Lc 1, 80); as regiões desertas que são lugares de tentação, mas também lugares onde o homem sente a própria pobreza, porque desprovido de apoios e certezas materiais, e compreende que o único ponto de referência sólido permanece o próprio Deus. Mas João Baptista não é apenas um homem de oração, do contacto permanente com Deus, mas também um guia para esta relação. Citando a oração que Jesus ensina aos discípulos, o «Pai-Nosso», o evangelista Lucas anota que o pedido é formulado pelos discípulos com estas palavras: «Senhor, ensinai-nos a rezar, como também João ensinou aos seus discípulos» (cf. Lc 11, 1).

Caros irmãos e irmãs, celebrar o martírio de são João Baptista recorda-nos, também a nós cristãos deste nosso tempo, que não se pode ceder a compromissos com o amor a Cristo, à sua Palavra e à Verdade. A Verdade é Verdade, não existem compromissos. A vida cristã exige, por assim dizer, o «martírio» da fidelidade quotidiana ao Evangelho, ou seja, a coragem de deixar que Cristo cresça em nós e que seja Cristo quem orienta o nosso pensamento e as nossas acções. Mas isto só se verifica na nossa vida se a nossa relação com Deus for sólida. A oração não é tempo perdido, não é roubar espaço às actividades, inclusive às obras apostólicas, mas é precisamente o contrário: se formos capazes de ter uma vida de oração fiel, constante e confiante, o próprio Deus dar-nos-á a capacidade e a força para viver de modo feliz e tranquilo, para superar as dificuldades e testemunhá-lo com coragem. São João Baptista interceda por nós, a fim de sabermos conservar sempre o primado de Deus na nossa vida

O que há de errado com o mundo?




Temos olhos e não vemos, ouvidos e não ouvimos. Mas o homem permanece sempre em busca da verdade. Mas o que é a verdade? Qual é a verdade que buscamos? Diante de tantas falsas verdades e, mais, de toda a relativização da verdade, é necessário que o homem aprenda a apreender a verdade que o liberta das correntes da mentira e das ideologias. Deus nos criou livres e racionais, mas os nossos dias nos levam ao aprisionamento e à irracionalidade.

Neste curso vamos entender o porquê desta inversão e como podemos agir para sermos homens que buscam a verdade.

Informações
- 4 encontros: 09/09, 16/09, 23/09 e 30/09
- Horários: 20:00 às 22:00
- Endereço: SMT Conjunto 12 Casa 03
- Valor: R$ 20,00
Inscrições pelo link: https://goo.gl/bwIlHy

sábado, 27 de agosto de 2016

Santa Mônica



“Mulher de fé viril, de assentada gravidade, de cristã piedade e materna caridade” (Sto. Agostinho)

No ano de 332 em Tagaste, norte da África, nasceu Mônica, de família Cristã e abastada, sendo assim educada na Fé Cristã e teve como privilégio a permissão para estudar.
Mônica, jovem de fino trato, foi dada em casamento a um cidadão, também de Tagaste, e de nome Patrício. Patrício apesar de sua boa linhagem era rude e pagão, além de tudo era genioso e lento.

Para a jovem Monica os anos de convivência matrimonial foram difíceis e penosos, porém foi no crucificado que ela encontrou forças, para suportar o peso da cruz. Sua vida eram suplicas penitências e sacrifícios pela conversão de seu marido.

Da união de Patrício e Mônica nasceram três filhos; Agostinho, Navigio e Perpetua. O fruto de tantas lagrimas e orações foi a conversão de seu esposo Patrício, que logo após receber o batismo adormeceu na paz do Senhor.
Agostinho, filho mais velho, sempre foi motivo de preocupação para Monica o coração de mãe ficava apreensivo com a insubordinação do filho e também pela inconstância e temperamento difícil.

Quando seu pai morreu, Agostinho estava com dezessete anos, e decididamente saiu de casa alegando o desejo de estudar o mundo, porém lhe mostrou o caminho dos vícios e da imoralidade.
Dona Monica intensificou suas orações e suplicas pelo seu filho pródigo. O coração de mãe sofria e derramava lagrimas de dor pelos desmandos do filho. Certo dia ouviu de um bispo, a seguinte revelação: “Continue a rezar, pois é impossível que se perca um filho de tantas lagrimas”.
Homem de espírito irrequieto, Agostinho destaca-se pela inteligência sendo um dos mais conceituados professores de retórica de Cartago. Para fazer sofrer, ainda mais, sua mãe, inscreve-se como membro ativo de uma seita Herética dos Maniqueus.

Tentando fugir dos cuidados e dos olhares de sua mãe, Agostinho foge para Itália, e em Milão é condecorado com o cargo de professor oficial de retórica.
Monica, não se dando por vencida, viaja da África para Itália com o firme propósito de recuperar o filho. O coração de mãe não se engana.
Por vezes Monica, em lagrimas, elevou suas preces à sempre Virgem Maria implorando sua valiosa intercessão.
Foi num desses momentos de intimidade com a Ssma. Virgem, que Monica recebeu o conselho de Nossa Senhora para usar a Sagrada Correia, segundo o modelo que ela mesma usava em Nazaré na Galiléia.

Em Milão, Agostinho tornou-se frequentador dos magníficos sermões do Bispo Ambrósio, primeiro por curiosidade, depois por interesse espiritual.
Os fatos pareciam confirmar o que em preces Mônica tanto desejou, pois Agostinho, seu filho Adeodato e seu amigo inseparável, Alipio, recebem o batismo de Santo Ambrósio.

Para Mônica, tudo estava consumado o fruto de suas preces e lagrimas, teria se confirmado com a conversão do filho era hora de voltar para a casa. Decide embarcar para África, Agostinho viaja acompanhado de sua Santa Mãe.

Próximo que estavam de Roma, ou seja, no porto de Óstia, Dona Mônica adoeceu e veio a falecer. Era o ano de 387, Monica estava com 55 anos, o belo modelo de mãe Cristã, deixa para a história o testemunho de fé e de perseverança de mais de 20 anos de preces, lagrimas e suplicas.

Santo Agostinho eternizou sua mãe escrevendo:
“Próximo já do dia em que ela ia sair desta vida, sucedeu que nos encontrássemos sozinhos ela e eu, apoiados a uma janela cuja vista dava para o Jardim Interior da casa. Era em Óstia, onde apartados da multidão, após o cansaço de uma longa viagem, retemperávamos a sós, muito docemente. Esquecendo o passado e ocupando do futuro, qual seria a vida eterna dos Santos, que nunca os olhos viram nunca o ouvido ouviu, nem o coração do homem imaginou. Nossos corações abriam-se ansiosos para a corrente celeste da fonte da vida divina.”

Que todas as mães possam ter a certeza de que suas preces não caem no esquecimento de Deus. Suas lagrimas comovem o coração do senhor. “Pois quando uma mãe se ajoelha em preces, um filho se levanta.”

Amém
Paz e Bem!

Fonte: Márcio Antônio Reiser O.F.S.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Transverberação do coração de Santa Teresa

Um “fogo” e uma ferida

Maria del Rosário Diez Rodriguez
 
Na Igreja, são poucos os santos com duas celebrações litúrgicas. Santa Teresa foge à regra porque, além da sua festa própria que se celebra a 15 de Outubro – data que mais se aproxima ao dia da sua morte – tem, a partir do século XIII, outra celebração litúrgica, a da Transverberação do seu coração, um fenómeno ou graça mística que recebeu pela primeira vez em 1560. 

Actualmente esta segunda ocorrência litúrgica da Transverberação só se celebra no Carmelo Teresiano e nas dioceses de Ávila e de Salamanca. Mas com uma particularidade: a data oficial é o dia 26 de Agosto e nas dioceses referidas celebra-se a 27 do mesmo mês. A história desta segunda e tardia festa carmelitana está ligada a uma mentalidade peculiar em que se tem em conta o peso da arte e da iconografia, tal como a presença da relíquia do coração incorrupto da Santa em Alba de Tormes, que é uma testemunha silenciosa, mas eficaz, daquela graça mística. É no século XVIII, ao pedir-se a Roma esta nova celebração, quando se exige, como prova, uma inspeção, ou exame médico ao coração, para ver se se podia demonstrar a existência dalgum sinal ou ferida do fenómeno místico. Tal exame ou processo aconteceu em 1726 e, abertamente se diz, que se tratava de examinar a chaga da Transverberação. Sentia-se, portanto, a falta duma leitura física e natural do fenómeno que ia ter ainda repercussão nos textos litúrgicos que se elaborariam para a mesma celebração. Essa mentalidade teve tal peso, que o Papa Bento XIII decretou a festa em 25-07-1726. 

A descrição teresiana (V 29, 29, 13-14), bem como a explicação que S. João da Cruz dá (Chama 2, 6-12) do mesmo fenómeno não conduzem às pretensas explicações daqueles médicos. Tratou-se apenas dum fenómeno puramente espiritual, ainda que, como afirma a própria Santa, vai influenciar também o aspecto físico, causando uma alguma dor. Mas nunca se dá a entender que se trata de ferida natural e física. Na reforma litúrgica do Concílio Vaticano II, a liturgia da Transverberação (textos e leituras bíblicas) foi renovada e corrigida na linguagem, atendendo-se mais a uma expressão de carácter simbólico que a uma afirmação rotunda da fisiologia do caso. 

Todos os anos a 26 de Agosto, no mosteiro de São José e de Nossa Senhora (de la Calle), as filhas de Santa Teresa celebram a Transverberação do Coração de Santa Teresa, essa experiência mística da proximidade com Deus e da ferida que sentiu no coração, em que via um anjo introduzir uma lança no seu peito que, segundo as suas palavras, “me deixava totalmente abrasada no amor do grande Deus”. 

Neste IV centenário da Beatificação da Santa Reformadora, as comemorações Tiveram início na Eucaristia das 8,30 horas com uma missa votiva em que esta experiência mística coincide com a Revelação divina, consignada na Bíblia através de S. Paulo e do Evangelho de S. João, recordando Teresa de Jesus, neste dia, como uma mulher especialmente plena do amor de Deus (abrasada ou ferida simbolicamente no seu coração), na qual foi derramado de maneira singular o fogo do Espírito Santo, que a conduziu ao serviço dos outros e da Igreja, por meio da oração e da revitalização da vida carmelitana, começado a Reforma da Ordem no dia 24 de Agosto de 1562. Às 12 horas, exposição de duas obras iconográficas do século XVIII, expostas para esta celebração, sob o título “A Transverberação de Santa Teresa com as duas Trindades”, uma mostra do importante tema iconográfico no âmbito carmelitano da Transverberação, incidindo na dupla natureza de Cristo, assim como a representação da sagrada família onde aparecem as figuras de Deus Pai e do Espírito formando a Trindade com a figura de Jesus Menino. A pintura que esteve escondida nas paredes do claustro do mosteiro de finais do século XVI na rua Eduardo Dato, na atualidade guardada na clausura, dispõe os personagens seguindo um eixo central, pondo em destaque Jesus sobre uma rocha como membro da Trindade Celeste, mesmo acompanhado pela Virgem Maria e São José. 

O Amor Divino que dispara para o coração da Santa indicado por São José e a Virgem Maria leva um dardo para o oferecer ao Filho. 

Esta imagem com a obra de Corneille Galle, guardada no relicário conventual, completa uma iconografia trinitária que sublinha as duas naturezas – a divina e a humana – de Cristo. Por um lado, Jesus Menino aparece acompanhado pela Virgem e São José, adoptando o patriarca como padroeiro da Ordem dedicada à Virgem Maria em que a Santa recebe o dardo de amor divino de Jesus Menino e a Coroa de glória bem como a Palma do Martírio Místico das mãos dos anjos e, por outro, a presença da Santíssima Trindade. 

Duas mostras iconográficas do século XVII da Experiência Mística de Santa Teresa, sem dúvida, que englobam a Graça Mítica da Transverberação recebida, pela primeira vez, em 1560 e que, a partir de 1571, dá início a um período de comunhão com a Santíssima Trindade que culminou no Matrimónio Espiritual em 1572. 

Membro da Comissão Cultural 
Huellas Teresa de Jesus do 
Município de Palencia 


quinta-feira, 25 de agosto de 2016

ANÁLISE – Dinheiro não explica tudo, senhores

Blog examina fatores em jogo no debate mais histérico dos últimos tempos


I. Comentei em tempo real no Twitter a apuração dos votos no referendo em que os britânicos decidiram pela saída do Reino Unido da União Europeia (UE).


II. Tuitadas à parte, resumo, com base nos ensinamentos do filósofo inglês Roger Scruton, e comento abaixo os fatores que constituem as verdadeiras causas da insatisfação britânica com a UE:

1) A situação do pós-guerra 

Os britânicos defenderam com sucesso sua soberania contra o nazismo – e o país não foi ocupado.

Outras nações, que mantiveram uma espécie de neutralidade, sofreram derrotas e/ou foram ocupadas.

Isto implica uma enorme diferença na psique dos britânicos, porque eles saíram da guerra com o senso de ter cumprido um dever fundamental: o de proteger o país contra a ameaça externa.

A premissa na cabeça deles é de que, ao defender sua liberdade, defendem também a Europa e seus valores contra as tentativas de destruí-los.

Alemães e franceses, por exemplo, sobreviveram à ocupação e à animosidade entre eles e precisavam de um novo tipo de reconciliação que os britânicos dispensam.

A geração que lutou contra Hitler deixou para as gerações seguintes uma pergunta incontornável a ser feita diante da opção de entregar a soberania a qualquer corpo político transnacional composto por burocratas não eleitos:

– Valeu a pena lutar para depois simplesmente se render?

Para se ter uma ideia do peso desta luta na história britânica, este blog recomenda o livro “O fator Churchill – Como um homem fez história”, escrito pelo ex-prefeito de Londres e também jornalista de carreira, Boris Johnson, um dos líderes do movimento pela saída da UE e, por isso mesmo, tachado de tudo quanto é rótulo negativo por jornalistas que nunca leram sua obra.

Eis um trecho para facilitar:

“Um ano depois dessa decisão [de Winston Churchill] – lutar em vez de negociar [com Hitler] –, 30 mil homens, mulheres e crianças britânicos tinham perdido a vida, quase todos em mãos alemãs. Pesando na balança as alternativas – uma paz humilhante ou a matança de inocentes –, é difícil imaginar qualquer político britânico moderno tendo a coragem de seguir a mesma linha de ação de Churchill.”

No entanto, ele “estava disposto a pagar essa conta do açougueiro”, porque “tinha a vasta e quase temerária coragem moral de ver que seguir lutando seria pavoroso, mas que render-se seria ainda pior. Estava certo.”
Boris Johnson
2) Britânicos têm governo e leis diferentes em relação ao resto da Europa, que viveu a grande transformação infligida por Napoleão.

Na Grã-Bretanha, a legislação não foi em geral criada de cima, mas de baixo: da resolução dos conflitos entre pessoas comuns.

O sistema de common law britânico têm especial dificuldade de se adequar a decisões de tribunais europeus.

Quando os britânicos se veem submetidos a um regime de regulações bastante distinto daquele a que estão acostumados – no qual o Parlamento só intervém quando há algum problema adicional –, isto inevitavelmente gera sentimentos de revolta.

A sensação é de estar sendo governado por gente de fora que não os entende e não sabe como resolver seus problemas, mas apenas criar regras, que geram tantos conflitos quanto resolvem – enquanto a common law só se ocupa de resolvê-los.

Boris Johnson, agora cotado como favorito dentro do Partido Conservador para substituir David Cameron como primeiro-ministro, disse justamente o seguinte após a vitória do Brexit:

“Acredito que temos uma oportunidade gloriosa: podemos aprovar nossas leis e ajustar nossos impostos de acordo com a necessidade da economia do Reino Unido.”

3) O mais importante: britânicos falam a língua internacional e são tão imersos nela que raramente falam outra.

Têm em geral pouca habilidade para entender qualquer língua que não a sua; mas a língua que eles falam é a primeira que as demais pessoas geralmente aprendem.

Então qualquer cidadão razoavelmente educado de outro país pode se mudar para o deles e se estabelecer no território; mas esse território é pequeno – e é muito amado também, porque os britânicos lutaram por ele em duas guerras mundiais.

Esta era, de fato, a maior mensagem de propaganda naquele período: que eles tinham um lindo território que precisava ser salvo e protegido.

Então os britânicos se sentem sob cerco em função da provisão de liberdade de movimento concedida pela União Europeia, que leva meio milhão de pessoas a cada ano para dentro do pequeno país.

Como esta provisão está embutida no acordo, é quase impossível de mudar. E ela é o fator mais incômodo aos britânicos, que sentem terem perdido o controle sobre suas fronteiras.

Um vasto número de pessoas dos países que eram comunistas no Leste Europeu competem com eles por trabalho e sobretudo moradia, o que causa uma enorme crise imobiliária que os britânicos não sabem como resolver.

Isto remete à primeira razão, de defesa da soberania.

Britânicos se perguntam como pode haver soberania nacional se eles perderam o direito de controle das fronteiras: se não podemos excluir aqueles que não queremos e se temos de dar privilégios especiais àqueles que queremos.

Esses 3 fatores, amparados num senso profundo de ordenamento político que vigora há mil anos, são as verdadeiras causas da insatisfação britânica com a UE.

– 2 observações básicas:

1) A UE, em seu entusiasmo por dissolver as fronteiras, deixou-se desprotegida contra migrações de massa.

O sentimento alemão de culpa obviamente piora a situação e não há como negar a preocupação com os problemas criados pelas medidas politicamente corretas adotadas por Angela Merkel.

Esta preocupação se traduz nas seguintes questões:

a) Não há limites para as pessoas que receberemos e, se houver, somos forçados a aceitar uma transferência completa de população ao nosso país que lutou para se proteger precisamente contra as ambições de seus vizinhos?

b) Devemos ignorar fatores como conhecimento, religião, capacidade de adaptação e cultura na incorporação de novas comunidades em nosso meio?

Essas são as grandes perguntas que a UE despertou e que, até certo ponto, proibiu a população dos países-membros de discutir.

Escócia e Irlanda do Norte votaram por permanecer no bloco e políticos dos dois países já sinalizaram que pretendem trabalhar por um referendo para se separarem do Reino Unido, mas os britânicos estão dispostos a aceitar as consequências.


2) Ser governado por um tratado é colocar-se numa situação em que você não pode se adaptar à mudança.

Cada nação pode identificar seus problemas e resolvê-los ou adaptar-se a eles se puder tomar iniciativas legislativas por si própria.

Se não podem tomar decisões, como vão se adaptar? O acordo impõe que se tenha a assinatura de todos os seus membros para fazer mudanças até as mais básicas.

Mas é um acordo assinado há mais de 50 anos por pessoas que já morreram em uma situação que já desapareceu. Então se questiona:

– Por que ainda devemos ser governados por isso em vez de nossas próprias decisões serem tomadas em nossos parlamentos de acordo com o nosso próprio senso de quais são os nossos problemas?

A maioria dos britânicos considera irracional essa submissão.

Quando Lenin impôs o comunismo naquilo que se tornou a URSS, ele destruiu todas as instituições nas quais a oposição poderia se formar. Não apenas as instituições do Parlamento, mas também as instituições jurídicas, abolindo os tribunais e as profissões adjacentes.

Então não havia oposição e a URSS seguiu assim por 70 anos até a queda do muro que nunca deveria ter estado lá.

Construir um ordenamento político sem espaço para oposição ou sem a habilidade de mudar de acordo com a necessidade do momento é o maior dos erros políticos.

É o erro de criar uma ordem política que não vai reconhecer erros políticos.

É isto que a UE fez, na prática, ao vincular todos os seus procedimentos a um acordo assinado em uma situação que desapareceu.

A UE confiscou a soberania nacional e não ofereceu nada em troca por ela.

– 2 respostas a argumentos econômicos:

1) Os argumentos econômicos não tendem a uma só direção.

Uma zona de livre comércio obviamente simplifica o comércio e portando a prosperidade, mas as regulações do regime da UE ao mesmo tempo criam obstáculos contra isto, dando um limite de competitividade a países do Círculo do Pacífico e controlando as horas de jornada e condições de trabalho, o que torna nações da UE não competitivas na moderna economia global.

Esses problemas são complexos, mas as evidências históricas mostram que os economistas são muitas vezes autoridades autocentradas que erram com frequência em seus julgamentos (especialmente quando estão em jogo elementos para além de sua especialidade, o que praticamente sempre é o caso, pois o mundo real não vem separado em categorias).

A UE não ensinou o Reino Unido a fazer comércio, muito pelo contrário. E se o país souber fortalecer seu capital cultural, tende a reverter efeitos negativos imediatos da economia com muito mais consistência em longo prazo, como aconteceu com todas as nações que historicamente colocaram a conquista da inteligência e da liberdade à frente da ambição financeira.

2) O argumento não é sobre economia, de qualquer modo. É sobre identidade: quem somos nós?

Imagine persuadir pessoas a compartilhar suas casas e terras com uma família cujos modos e valores elas não podem aceitar, sob a contrapartida de que ficarão duas vezes mais ricas do que são.

A resposta poderia ser: ok, que bom que seremos duas vezes mais ricos, mas não teríamos o que realmente queremos, que é o nosso amor um pelo outro, nosso vínculo a este lugar e nossa habilidade de governarmos a nós mesmos de acordo com o nosso próprio modo de vida.

Esta resposta soa perfeitamente razoável.

Uma das grandes perguntas neste debate é: não há outros valores que não os econômicos?

No nosso mundo, quando políticos têm de responder perguntas, eles rebaixam as perguntas aos termos econômicos: será melhor se fizermos isto, será pior se fizermos aquilo, e assim por diante, mesmo quando as perguntas sobre economia vêm apenas depois de perguntas sobre integridade, soberania e liberdade.

E é disto que se trata.

III. Margaret Thatcher avisou. Ela tinha razão.

Em entrevista à revista Forbes, publicada em 26 de outubro de 1992, a ex-premiê britânica afirmou:

“As nações se sentem confortáveis em sua própria nacionalidade. O orgulho permite que você faça coisas que de outra forma poderia não ser capaz de fazer. A Europa deve se constituir de cada grupo em sua própria identidade nacional. Não tente apagar isso. Se você tentar empurrar as pessoas para um molde, você vai criar ressentimento, e é isto que você está criando agora. (…) Maastricht foi um acordo que virou totalmente na direção errada. Foi um tratado que nos levou de ser uma comunidade econômica com uma espécie de mercado comum como nosso objetivo, a tentar criar uma União Europeia com uma cidadania dessa união”.

O temor de Thatcher: “80% das decisões econômicas da Grã-Bretanha será feita em Bruxelas.”

“O que é que há com essas pessoas que gostam das liberdades da democracia, que apreciam que os representantes eleitos prestem contas perante o povo? Por que eles querem substituir isto por burocracia? Qual é o problema, o que aconteceu com eles? Vou lhe dizer que a Comissão [Europeia] ama seus poderes. Poder por uma questão de poder. Não foi por isso que lutamos. Nós lutamos pela democracia, liberdade e Justiça. (…) Nós acabamos de reeleger nosso parlamento. Para quê? Apenas para ser um talk show?”

Sistemas internacionais centralizados, como moedas nacionais, estavam fadadas ao fracasso segundo Thatcher porque “estamos todos em diferentes níveis de desenvolvimento das nossas economias”. Ela alertou para “enormes subsídios extras do resto de nós para eles ou movimentos maciços de imigração de seus países para o nosso. Ambos causariam ressentimento e não um desenvolvimento harmonioso. Devemos cada um de nós se orgulhar de ser países separados que cooperam juntos”.

De fato, os europeus se livraram de moedas nacionais e as substituíram pelo euro, mas as economias combinadas eram totalmente distintas.

Thatcher ensinava ainda:

“A forma regular mais detalhada de cooperação internacional é o comércio, o comércio internacional. Ele acontece a cada hora do dia. As grandes empresas em países pequenos que vendem para pequenas empresas em grandes países. Não importa o tamanho do seu país. Em livre comércio, você obtém a livre circulação com os melhores produtos, o melhor valor para o consumidor. E é isso que todos nós devemos levar adiante. Não blocos de comércio que excluem as pessoas.”

Sendo ou não bravata da Dama de Ferro, em tudo isto que previu, em tudo que falou em 1992 que daria errado com a permanência no bloco, ela estava coberta de razão, embora o atual CEO esquerdista da própria Forbes não tenha aprendido bulhufas:


As elites políticas e econômicas da UE, como o resto do establishment bancado e pautado por toda parte pelo investidor bilionário de esquerda George Soros, não estão interessadas no povo britânico, mas, sim, em manter seu poder e, quem sabe, aumentá-lo, rotulando de populistas de direita quem lhes faça oposição e de idiotas quem os siga.

Felizmente, dessa vez, os britânicos ouviram Thatcher e escaparam do engodo.

Agora, como antecipei em abril, só falta o Brasil se livrar de Mercosul e Unasul:


quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Bartolomeu

Queridos irmãos e irmãs!

Na série dos Apóstolos chamados por Jesus durante a sua vida terrena, hoje quem atrai a nossa atenção é o apóstolo Bartolomeu. Nos antigos elencos dos Doze ele é sempre colocado antes de Mateus, enquanto varia o nome daquele que o precede e que pode ser Filipe (cf. Mt 10, 3; Mc 3, 18; Lc 6, 14) ou Tomé (cf. Act 1, 13). O seu nome é claramente um patronímico, porque é formulado com uma referência explícita ao nome do pai. De facto, trata-se de um nome provavelmente com uma marca aramaica, Bar Talmay, que significa precisamente "filho de Talmay".

Não temos notícias de relevo acerca de Bartolomeu; com efeito, o seu nome recorre sempre e apenas no âmbito dos elencos dos Doze acima citados e, por conseguinte, nunca está no centro de narração alguma. Mas, tradicionalmente ele é identificado com Natanael: um nome que significa "Deus deu". Este Natanael provinha de Caná (cf. Jo 21, 2), e portanto é possível que tenha sido testemunha do grande "sinal" realizado por Jesus naquele lugar (cf. Jo 2, 1-11). A identificação das duas personagens provavelmente é motivada pelo facto que este Natanael, no episódio de vocação narrada pelo Evangelho de João, é colocado ao lado de Filipe, isto é, no lugar que Bartolomeu ocupa nos elencos dos Apóstolos narrados pelos outros Evangelhos. Filipe tinha comunicado a este Natanael que encontrara "aquele sobre quem escreveram Moisés, na Lei, e os profetas: Jesus, filho de José de Nazaré" (Jo 1, 45). Como sabemos, Natanael atribuiu-lhe um preconceito bastante pesado: "De Nazaré pode vir alguma coisa boa?" (Jo 1, 46a). Esta espécie de contestação é, à sua maneira, importante para nós. De facto, ela mostra-nos que segundo as expectativas judaicas, o Messias não podia provir de uma aldeia tanto obscura como era precisamente Nazaré (veja também Jo 7, 42). Mas, ao mesmo tempo realça a liberdade de Deus, que surpreende as nossas expectativas fazendo-se encontrar precisamente onde não o esperávamos. Por outro lado, sabemos que Jesus na realidade não era exclusivamente "de Nazaré", pois tinha nascido em Belém (cf. Mt 2, 1; Lc 2, 4) e que por fim provinha do céu, do Pai que está no céu.

Outra reflexão sugere-nos a vicissitude de Natanael: na nossa relação com Jesus não devemos contentar-nos unicamente com as palavras. Filipe, na sua resposta, faz um convite significativo: "Vem e verás!" (Jo 1, 46b). O nosso conhecimento de Jesus precisa sobretudo de uma experiência viva: o testemunho de outrem é certamente importante, porque normalmente toda a nossa vida cristã começa com o anúncio que chega até nós por obra de uma ou de várias testemunhas. Mas depois devemos ser nós próprios a deixar-nos envolver pessoalmente numa relação íntima e profunda com Jesus; de maneira análoga os Samaritanos, depois de terem ouvido o testemunho da sua concidadã que Jesus tinha encontrado ao lado do poço de Jacob, quiseram falar directamente com Ele e, depois deste colóquio, disseram à mulher: "Já não é pelas tuas palavras que acreditamos, nós próprios ouvimos e sabemos que Ele é verdadeiramente o Salvador do mundo" (Jo 4, 42).

Voltando ao cenário de vocação, o evangelista refere-nos que, quando Jesus vê Natanael aproximar-se exclama: "Aqui está um verdadeiro Israelita, em quem não há fingimento" (Jo 1, 47). Trata-se de um elogio que recorda o texto de um Salmo: "Feliz o homem a quem Iahweh não atribui iniquidade" (Sl 32, 2), mas que suscita a curiosidade de Natanael, o qual responde com admiração: "Como me conheces?" (Jo 1, 48a). A resposta de Jesus não é imediatamente compreensível. Ele diz: "Antes que Filipe te chamasse, eu te vi quando estavas sob a figueira" (Jo 1, 48b). Não sabemos o que aconteceu sob esta figueira. É evidente que se trata de um momento decisivo na vida de Natanael. Ele sente-se comovido com estas palavras de Jesus, sente-se compreendido e compreende: este homem sabe tudo de mim, Ele sabe e conhece o caminho da vida, a este homem posso realmente confiar-me. E assim responde com uma confissão de fé límpida e bela, dizendo: "Rabi, tu és o filho de Deus, tu és o Rei de Israel" (Jo 1, 49). Nela é dado um primeiro e importante passo no percurso de adesão a Jesus. As palavras de Natanael ressaltam um aspecto duplo e complementar da identidade de Jesus: Ele é reconhecido quer na sua relação especial com Deus Pai, do qual é Filho unigénito, quer na relação com o povo de Israel, do qual é proclamado rei, qualificação própria do Messias esperado. Nunca devemos perder de vista nenhuma destas duas componentes, porque se proclamamos apenas a dimensão celeste de Jesus, corremos o risco de o transformar num ser sublime e evanescente, e se ao contrário reconhecemos apenas a sua colocação concreta na história, acabamos por descuidar a dimensão divina que propriamente o qualifica.

Da sucessiva actividade apostólica de Bartolomeu-Natanael não temos notícias claras. Segundo uma informação referida pelo historiador Eusébio do século IV, um certo Panteno teria encontrado até na Índia os sinais de uma presença de Bartolomeu (cf.Hist. eccl., V 10, 3). Na tradição posterior, a partir da Idade Média, impôs-se a narração da sua morte por esfolamento, que se tornou muito popular. Pense-se na conhecidíssima cena do Juízo Universal na Capela Sistina, na qual Michelangelo pintou São Bartolomeu que segura com a mão esquerda a sua pele, sobre a qual o artista deixou o seu auto-retrato. As suas relíquias são veneradas aqui em Roma na Igreja a ele dedicada na Ilha Tiberina, aonde teriam sido levadas pelo Imperador alemão Otão III no ano de 983. Para concluir, podemos dizer que a figura de São Bartolomeu, mesmo sendo escassas as informações acerca dele, permanece contudo diante de nós para nos dizer que a adesão a Jesus pode ser vivida e testemunhada também sem cumprir obras sensacionais. Extraordinário é e permanece o próprio Jesus, ao qual cada um de nós está chamado a consagrar a própria vida e a própria morte.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

História de Santa Rosa de Lima


Nascida em Lima, no Peru, em 30 de abril de 1586, com o nome de Isabel Mariana de Jesus Paredes Flores y Oliva. Ainda criança, ouvira de uma índia, Mariana que era bonita como uma rosa e todos da família logo concordaram, assim, este tornou-se seu apelido. Também nos tempos de menina conta-se que ela mesma disse que gostaria de ser chamada como Rosa de Santa Maria.

Sua infância foi marcada por grandes momentos de oração e meditação, tornou-se devota de Nossa Senhora e recorria sempre à proteção da Virgem Mãe de Deus. Em sua história há relatos de que certo dia, Rosa rezava para sua imagem da Virgem Maria com o Menino Jesus em seus braços e ouviu uma voz que vinha da imagem assim dizendo: “Rosa, dedique a mim todo o seu amor…”

E assim, a menina Rosa decidiu que dali em diante atenderia ao apelo de Deus e dedicaria sua vida e seu amor somente a Jesus. Mesmo ao longo da vida quando recebia propostas de casamento, Rosa afirmava categoricamente que era fiel a Jesus: “o prazer e a felicidade que o mundo pode me oferecer são simplesmente uma sombra em comparação com o que sinto”. Nessa época também decidiu cortar seus longos cabelos e cobrir seu rosto com véu.

Rosa era sempre comprometida com suas orações, ainda que tivesse muito trabalho como doméstica ou na lavoura. Além disso, ela visitava frequentemente os pobres e enfermos. Muitos milagres de curas, conversões, propiciações de chuvas e amenizações do clima são atribuídos a santa.

Um fato de destaque sobre Rosa era que, por ser devota de Nossa Senhora, sempre fazia pedidos a Santa Virgem para que houvesse o crescimento da Igreja, sobretudo entre os indígenas americanos.

Em certa ocasião, pediu a Nossa Senhora para que a indicasse em qual ordem ela deveria servir e, assim, rezava sempre com esse pedido. Com a prece diária, Rosa notou que sempre que orava surgia uma borboleta preta e branca. Compreendendo isso como um sinal de Deus, Rosa entendeu que deveria ingressar na Ordem Terceira da Congregação de São Domingos, cujas vestimentas eram nas cores preto e o branco. As cores da pequena borboleta que a visitava diariamente eram as mesmas do hábito de Santa Catarina de Sena, a santa pela qual tinha tanta devoção e a quem deseja tanto imitar. Em 1606, aos vinte anos, ingressou na Ordem Terceira Dominicana.

A partir disso, todo ano durante a festa de São Bartolomeu Rosa passava o dia em oração, aos que perguntavam o porquê, ela dizia: “É porque este é o dia das minhas núpcias eternas”. A cada 24 de agosto o fato se repetia em 1617, Rosa não suportou mais uma grave enfermidade e veio a falecer no dia de São Bartolomeu com apenas 31 anos.

Seu túmulo, os locais onde viveu e trabalhou pela Igreja bem cedo tornaram-se locais de peregrinações. Muitos milagres começaram a acontecer. A beatificação de Rosa de Santa Maria deu-se no ano de 1667, logo no primeiro ano do pontificado do Papa Clemente IX. A concretização de sua canonização demorou um pouco mais para acontecer. O Papa Clemente X relutava em elevá-la à glória dos altares. Mas o Papa convenceu-se de que deveria canonizá-la depois que presenciou uma milagrosa chuva de pétalas de rosas que caiu sobre ele e que todos atribuíram à ação da Beata Rosa de Santa Maria.

Clemente X a canonizou em 12 de abril de 1671. Rosa, a menina que um dia foi crismada por São Turíbio de Mongrovejo, passou a ser conhecida no mundo católico como Santa Rosa de Lima. Era a primeira mulher da América a receber essa honra tão excelsa. Santa Rosa de Lima é a padroeira da América Latina e das Filipinas.

Fonte: Via Lumina

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Amor e Responsabilidade: a lei do dom – compreendendo os dois aspectos do amor

Por Edward P. Sri

Como uma pessoa pode saber se está em um relacionamento de amor autêntico e comprometido, ou se está apenas em mais um romance desapontador que não vai resistir ao teste do tempo?
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Esse é o assunto sobre o qual João Paulo II – então Karol Wojtyla – se debruça na próxima seção de seu livro, “Amor e Responsabilidade”, quando ele discute os dois aspectos do amor.

De acordo com Wojtyla, existem dois aspectos do amor, e compreender a diferença é crucial para qualquer casamento, noivado ou namoro. Por um lado, temos o que está acontecendo dentro de nós quando nos sentimos atraídos por uma pessoa do sexo oposto.

Quando um rapaz encontra uma garota, ele experimenta uma série de sentimentos e desejos poderosos em seu coração. Ele pode se encontrar fisicamente atraído pela beleza do corpo dela, ou se perceber pensando constantemente nela em uma atração emocional. Essa dinâmica interior do desejo sensual (sensualidade) e do amor emocional (sentimentalidade) molda em grande parte a maneira com que o homem e a mulher interagem um com o outro, e é isso que faz o romance, especialmente em seus estágios iniciais, ser tão emocionante para o casal envolvido.

Entretanto, esse é apenas um aspecto do amor, que não deve ser igualado ao amor no sentido mais pleno. Nós sabemos da experiência que podemos ter fortes emoções e desejos por outra pessoa sem necessariamente estar comprometido com ela, ou sem a pessoa estar verdadeiramente comprometida conosco em uma relação de amor.

É por isso que Wojtyla coloca o aspecto subjetivo do amor em seu devido lugar. Ele nos desperta e nos lembra que, não importa o quão forte experimentemos essas sensações, isso não é necessariamente amor, mas simplesmente uma “situação psicológica”. Em outras palavras, por si só, o aspecto subjetivo do amor nada mais é do que uma experiência prazerosa que está acontecendo dentro de mim.

Essas emoções e desejos não são ruins, e podem se desenvolver dentro do amor, e até enriquecê-lo, mas não devemos vê-los como sinais infalíveis do amor autêntico. Wojtyla diz: “É impossível julgar o valor de um relacionamento entre duas pessoas meramente a partir da intensidade de suas emoções... O amor se desenvolve com base em uma atitude totalmente comprometida e totalmente responsável de uma pessoa para outra pessoa”; enquanto que ao mesmo tempo os sentimentos românticos “nascem espontaneamente das reações sensuais e emocionais. Um crescimento muito rápido e muito rico de tais sensações pode esconder um amor que falhou em se desenvolver” (Amor e Responsabilidade).

Direcionando o amor para as reações interiores

Os homens e as mulheres hoje são bastante suscetíveis a cair nessa ilusão de amor, pois o mundo moderno direcionou o amor para as reações interiores, focando-se primariamente no aspecto subjetivo. No último artigo, escrevi sobre o fenômeno do “amor hollywoodiano”, que nos diz que o amor será mais forte quanto mais forte forem nossas emoções. Wojtyla, entretanto, enfatiza que há uma outra faceta do amor que é absolutamente essencial, não importando quão fortes sejam nossas emoções e desejos. A esse aspecto ele chamou de “objetivo”.

Esse aspecto tem uma série de características objetivas que vão além dos sentimentos prazerosos que experimento no nível subjetivo. O verdadeiro amor envolve virtude, amizade, e a busca de um bem comum. No casamento cristão, por exemplo, marido e mulher se unem pelo bem comum de ajudarem um ao outro a crescer em santidade, aprofundar a união, e educar os filhos. Além disso, eles devem não apenas compartilhar esse objetivo em comum, mas possuir a virtude que os ajude a chegar lá.

É por isso que o aspecto objetivo do amor é muito mais do que um olhar interior para minhas emoções e desejos. É muito mais do que os prazeres que recebo da relação. Ao considerar o aspecto objetivo do amor, devemos discernir que tipo de relacionamento existe realmente entre eu e a pessoa que amo, e não simplesmente o que esse relacionamento significa para mim em meus sentimentos. A outra pessoa me ama mais pelo que sou ou me ama mais pelo prazer que recebe da relação? Meu(minha) amado(a) compreende o que é verdadeiramente melhor para mim? Ele(ela) tem a virtude para me ajudar a chegar ao que é melhor para mim? Estamos profundamente unidos por um objetivo comum, servindo um ao outro e lutando juntos por um bem comum que é maior do que cada um de nós? Ou estamos na verdade apenas vivendo lado a lado, compartilhando recursos e ocasiões agradáveis enquanto cada um persegue egoisticamente seus próprios projetos e interesses na vida? Esse são os tipos de questões que apontam para o aspecto objetivo do amor.

Agora podemos ver porque Wojtyla diz que o verdadeiro amor é “um fato interpessoal”, não simplesmente uma “situação psicológica”. Um relacionamento forte está baseado na virtude e na amizade, não simplesmente em experimentar juntos sentimentos agradáveis e situações prazerosas. Como explica Wojtyla, “o amor enquanto experiência deve estar subordinado ao amor enquanto virtude – de tal modo que sem o amor enquanto virtude não pode haver plenitude na experiência do amor” (Amor e Responsabilidade).

Amor doação de si

Uma das marcas mais distintivas do aspecto objetivo do amor é o dom de si mesmo. Wojtyla ensina que o que faz o amor comprometido diferente de todas as outras formas de amor (atração, desejo, amizade) é que as duas pessoas “se doam” uma para a outra. As pessoas não estão apenas atraídas uma pela outra, e elas não desejam simplesmente o que é melhor para a outra. No amor comprometido, cada pessoa se rende completamente à outra pessoa. “Quando o amor comprometido entra nessa relação interpessoal surge algo mais do que uma simples amizade: surgem duas pessoas que se entregam uma para a outra” (Amor e Responsabilidade).

De fato a idéia de amor auto-doação levanta alguns questionamentos importantes: como pode uma pessoa realmente se doar a outra? O que isso significa? Afinal de contas o próprio Wojtyla ensina que cada pessoa humana é completamente única. Cada pessoa tem sua própria mentalidade e sua vontade própria. No final, ninguém pode pensar por mim. Ninguém pode escolher por mim. Portanto, cada pessoa “é seu próprio mestre”, e não está disponível a ser entregue a outra pessoa. Então, em que sentido uma pessoa pode “se doar” a(o) seu(sua) amado(a)?

Wojtyla responde dizendo que é impossível para uma pessoa se doar a outra no nível natural e físico, mas na ordem do amor uma pessoa pode fazê-lo ao escolher limitar sua liberdade e unir sua vontade à da pessoa que ama. Em outras palavras, por causa do seu amor, uma pessoa pode na verdade desejar abdicar de seu próprio livre-arbítrio e ligá-lo ao da pessoa amada. Como Wojtyla diz, o amor “faz com que a pessoa queira exatamente isto – render-se ao(a) outro(a), à pessoa amada”.

A liberdade de amar

Por exemplo, considere o que acontece quando um homem solteiro se torna casado. Como solteiro, “Roberto” é capaz de decidir o que deseja fazer, quando deseja fazer, e como deseja fazer. Ele faz sua própria agenda. Ele decide onde vai viver. Ele pode se demitir de um emprego e se mudar para outra parte do país em um instante, se quiser. Ele pode deixar o apartamento uma bagunça. Ele pode gastar seu dinheiro do modo como quiser. E ele pode comer quando quiser, sair para onde quiser, e ir dormir quando quiser. Ele está acostumado a tomar sozinho as decisões de sua vida.

O casamento, entretanto, vai mudar de modo significativo a vida de “Roberto”. Se ele decide por conta própria se demitir do emprego, comprar um carro novo, viajar no final de semana, ou vender a casa, isso provavelmente não vai se encaixar muito bem com a vida da sua esposa! Agora que “Roberto” está casado, todas as decisões que ele estava acostumado a tomar por conta própria devem ser tomadas em união com sua esposa, e procurando o que for melhor para seu casamento e para sua família.

No amor de doação de si, um homem reconhece de modo profundo que sua vida já não é mais propriedade sua. Ele rendeu sua própria vontade à sua amada. Seus próprios planos, sonhos e gostos não estão completamente abandonados, mas agora eles são colocados em nova perspectiva. Eles estão subordinados ao bem de sua esposa e dos filhos que possam surgir do casamento. Como “Roberto” vai gastar seu tempo e seu dinheiro e como ele vai organizar sua vida já não é matéria de sua própria escolha pessoal. Sua família se torna o ponto de referência primário para tudo que ele for fazer.

Essa é a beleza do amor doação de si. Como solteiro “Roberto” tinha grande autonomia – ele podia organizar sua vida como quisesse. Mas, por causa de seu amor, “Roberto” escolheu livremente abdicar dessa autonomia, limitar sua liberdade, comprometendo-se com sua esposa e com o bem dela. O amor é tão poderoso que o impele a desejar render sua vontade à sua amada desse modo profundo.

Realmente muitos casamentos hoje em dia seriam muito mais sólidos se ao menos compreendêssemos e nos lembrássemos do amor de doação a que originalmente nos comprometemos. Ao invés de perseguir egoisticamente nossas próprias preferências e desejos, devemos nos lembrar que quando fizemos nossos votos escolhemos livremente render – amorosamente desejamos render – nossas vontades ao bem do(a) nosso(a) esposo(a) e dos filhos. Como Wojtyla explica: “A forma de amor mais plena consiste precisamente na auto-doação, em fazer do inalienável e intransferível ‘eu’ uma propriedade de outra pessoa” (Amor e Responsabilidade).

A lei do dom

Agora chegamos ao grande mistério do amor doação de si. No coração desse dom de si está uma convicção fundamental de que, ao render minha autonomia à pessoa amada, eu ganho muito mais em troca. Ao unir-me com outra pessoa, minha própria vida não fica diminuída, mas é profundamente enriquecida. Isso é o que Wojtyla chama de “lei do ekstasis”, ou lei da auto-doação: “O amante ‘sai de si mesmo’ para encontrar um existência mais plena no(a) outro(a)” (Amor e Responsabilidade).

Em uma época de vigoroso individualismo, entretanto, essa profunda afirmação de Wojtyla pode ser difícil de compreender. Por que devo sair de mim mesmo para encontrar a felicidade? Por que eu deveria me comprometer desse modo radical com outra pessoa? Por que deveria abdicar da liberdade de fazer o que quisesse com minha vida? Essas são as questões do homem moderno.

Entretanto, de uma perspectiva cristã, a vida não é para “fazer o que eu quiser”. A vida é para meus relacionamentos – é para encontrar a plenitude de meu relacionamento com Deus e com as pessoas que Deus colocou na minha vida. Na verdade, é aí que encontramos plenitude na vida: em viver bem nossos relacionamentos. Mas para viver bem nossos relacionamentos precisamos muitas vezes fazer sacrifícios, rendendo nossa vontade própria para servir ao bem dos outros. É por isso que descobrimos uma felicidade mais profunda na vida quando nos doamos desse modo, pois estamos vivendo do modo como Deus nos criou para viver, do modo como o próprio Deus vive: em um amor total, comprometido e de auto-doação. Como diz uma das passagens favoritas de Wojtyla retirada do Vaticano II: “O homem só se encontra ao fazer de si mesmo um dom sincero para os outros” (Gaudium et spes nr. 24).

Essa afirmação do Vaticano II se aplica especialmente ao matrimônio, onde o amor de auto-doação entre duas pessoas humanas se mostra mais profundamente. Ao me comprometer com outra pessoa em uma relação de amor verdadeiro eu certamente limito minha liberdade de fazer “o que quiser”. Mas ao mesmo tempo eu me abro para uma liberdade ainda maior: a liberdade de amar. Como explica Wojtyla: “O amor consiste em um compromisso que limita a liberdade da pessoa – é uma doação de si, e doar-se a si mesmo significa exatamente isso: limitar a própria liberdade em prol do(a) outro(a). A limitação da liberdade da pessoa pode parecer algo negativo e desagradável, mas o amor faz dessa limitação uma coisa positiva, criativa e cheia de alegria. A liberdade existe para que se possa amar” (Amor e Responsabilidade).

Portanto, enquanto o individualista moderno pode ver a auto-doação no matrimônio como algo negativo e restritivo, os cristãos veem tais limitações como libertadoras. O que eu realmente desejo fazer na vida é amar a Deus, minha esposa e meus filhos, e meu próximo – pois nesses relacionamentos encontro minha felicidade. E se eu existo para amar minha mulher e meus filhos e para viver totalmente comprometido a eles, eu devo evitar que meus desejos egoístas dominem minha vida e controlem minha casa. Em outras palavras, eu devo estar livre da tirania do “faço o que eu quero”. Só então é que sou livre para amar do modo como Deus me criou. Só então é que sou livre para ser feliz. Só então é que sou livre para amar.
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O Autor: Edward Sri é professor assistente de Teologia do Benedictine College em Atchinson, Kansas, Estados Unidos, e autor de vários livros de Teologia e espiritualidade.
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Traduzido de: http://catholiceducation.org/articles/marriage/mf0072.html
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sábado, 20 de agosto de 2016

A conversão de São Bernardo de Claraval


Para fugir do pecado da impureza, São Bernardo de Claraval se lançou sem hesitar em um lago gelado. A atitude do santo deixa evidente a natureza da batalha que trava todo aquele que se faz eunuco “por causa do Reino dos céus”.

Tendo recebido desde cedo uma sólida formação religiosa, Bernardo foi aluno notável em sua mocidade. Quando recebia alguma lição que contrariasse os mistérios da fé e a doutrina cristã, "recorria à oração e à meditação das Sagradas Escrituras para neutralizar o veneno inalado nas aulas" [1]. (Nenhum conselho pode ser tão útil para os nossos dias.) Mais tarde, o mesmo Bernardo será visto debatendo e debelando os erros dos professores de sua antiga escola.
Depois da morte de sua piedosa mãe, no entanto, o jovem rapaz foi atingido por uma tristeza acabrunhante. O luto se tinha apoderado totalmente de sua alma e ele não achava consolação em nada do que fazia, nem mesmo na oração, à qual já estava tão habituado, apesar da breve idade. Era final de agosto de 1110 e Bernardo contava cerca de 20 anos.
Instado por sua irmã Umbelina a distrair-se e passar tempo com os jovens que frequentavam o castelo, Bernardo começou a acercar-se de más companhias e brincar à beira do precipício dos maus costumes (cf. 1 Cor 15, 33). Como mais tarde escreveu ele ao Papa Eugênio III:
"No princípio, algumas coisas podem parecer insuportáveis, mas com o passar do tempo, se te acostumas a elas, não as julgarás tão pesadas; pouco depois, já te serão suportáveis; em seguida, não as notarás e, no fim, terminarão deleitáveis.Assim, paulatinamente, se chega à dureza do coração e, dela, à aversão." [2]
Para acordar Bernardo e impedir que a sua alma se perdesse, Deus permitiu que lhe sobreviessem fortes tentações, das quais a última, relativa ao pecado da impureza, fê-lo mudar totalmente de vida:
"Esquecido de sua vigilância habitual, permitiu que os seus olhos pousassem por um momento em um objetivo perigoso. Pela primeira vez, experimentou a rebelião da carne. Alarmado, então, perante o espectro do mal e pleno de remorsos pela sua falta, implorou imediatamente o auxílio do céu e, afastando-se do local, foi mergulhar em um pequeno lago e ali se manteve, meio morto de frio, até que a perturbação interna desapareceu totalmente. Das palavras de seus primeiros biógrafos conclui-se que decidiu naquele momento permanecer perpetuamente casto." [3]
Esse episódio da vida de São Bernardo deve servir de inspiração a todos os cristãos na luta pela castidade, principalmente no mundo de hoje, tão avesso a essa virtude.
O fato de que o santo se tenha lançado em um lago gelado para não pecar contra a castidade mostra a natureza da batalha que aqui se trava. Como diz Nosso Senhor no Evangelho (Mt 19, 12), "existem eunucos que nasceram assim do ventre materno" e "outros foram feitos eunucos por mão humana", isto é, alguns foram privados do sexo por natureza e outros por necessidade. Há, porém – e só assim se pode falar propriamente de "virtude" –, aqueles que se tornaram "eunucos por causa do Reino dos céus". Embora aqui Cristo esteja se referindo especificamente ao celibato, a sua consideração é válida para todos os cristãos, chamados que são a viver a santa pureza: porque o "ser eunuco" só é louvável e recompensado por Deus na medida em que é escolhido livremente pelo homem [4].
Os santos não eram "eunucos físicos", sem sensibilidade e sem paixões humanas, mas "homens de carne e osso", como quaisquer outros. A sua diferença é que, auxiliados pela graça divina, eles se fizeram "eunucos espirituais". Mas, isso (atenção!) por causa do Reino dos céus – e só por causa desse Reino (presente em suas almas pela graça santificante), eles estavam dispostos a tudo: a revolver-se na neve, como fez São Francisco de Assis; a jogar-se em um arbusto de espinhos, como fez São Bento; a mergulhar em um lago gelado, como São Bernardo [5]; ou mesmo a morrer, como fizeram tantos mártires ao longo da história da Igreja.
Pela vida dos santos, é possível concluir que a castidade não é um mero jogo de cálculos humanos: fosse assim, todas essas mortificações – recomendadas pelo próprio Evangelho (cf. Mt 5, 29-30) – não teriam sentido algum. Por que privar-se de algo prazeroso e, ao mesmo tempo, fazer arder o corpo no frio ou mesmo perder a própria vida? Por que tanto "radicalismo" com essa história de "castidade"? Porque, ontem, assim como hoje, os seguidores de Cristo não se fizeram eunucos "por mãos humanas": eles viveram (e vivem) a pureza por causa do Céu – e só a vida eterna pode explicar a sua abnegação e os seus sacrifícios, em que pese todo o desprezo do mundo.
Depois do episódio acima referido, como se sabe, Bernardo consagrou-se por inteiro a Deus e entrou na vida religiosa como monge cisterciense. Em 20 de agosto de 1153, partiu deste mundo, deixando na terra a sua notável fama de santidade, além de obras de incalculável valor espiritual.
No dia em que a Igreja celebra a memória deste grande doutor da Igreja, peçamos a sua intercessão. Que ele nos ajude a viver inteiramente para Deus, independentemente do estado de vida em que o Senhor nos colocou: na vida leiga ou consagrada, na vida sacerdotal ou matrimonial, todos são convocados à castidade, à entrega total do próprio ser e à santidade – porque, afinal, todos são chamados para amar.
São Bernardo de Claraval,
rogai por nós!

Recomendações

  • DANIEL-ROPS, Henri. A Igreja das Catedrais e das Cruzadas (trad. Emérico da Gama). 2. ed. São Paulo: Quadrante, 2011, pp. 94-135.
  • LUDDY, Ailbe J.. Bernardo de Claraval (trad. Eduardo Saló). Lisboa: Editorial Aster, 1959.
  • RAYMOND, Pe. M.. Amor sem Medida: Crônica de uma Família (trad. Pe. Ivo Montanhese). Petrópolis: Vozes, 1964.
  • RIBADENEIRA, Pe. Pedro de. Vida de São Bernardo. In: Cristianismo.

Referências

  1. A conversão de São Bernardo, II, 9.
  2. Da Consideração (trad. Ricardo da Costa), I, 2 (PL 182, 730).
  3. A conversão de São Bernardo, III, 6.
  4. Cf. Santo Hilário apud Santo Tomás de Aquino, Catena Aurea in Matthaeum, XIX, 3.
  5. Cf. São Josemaría Escrivá, Caminho, n. 143.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

«Feliz o homem, que se compraz na Lei do Senhor e nela medita dia e noite» (Sl 1,1-2)

O que significa a Lei do Senhor? O Salmo 118 está todo ele repleto do desejo de conhecer a Lei do Senhor e de se deixar guiar por ela ao longo da vida. Pode ser que o salmista tenha pensado na Lei da Antiga Aliança. O seu conhecimento exigia efetivamente um estudo sobre a longevidade da vida e a sua concretização um esforço de vontade também ao longo da vida. Mas o Senhor libertou-nos do jugo da Lei. Podemos considerar como Lei da Nova Aliança o grande preceito do amor que encerra a Lei e os Profetas, tal como foi dito; de facto, o perfeito amor a Deus e ao próximo seria certamente um objeto digno de ser meditado a vida inteira. 

Mas, mais ainda, entendemos pela Lei da Nova Aliança o próprio Senhor Jesus, uma vez que a sua vida constitui para nós o modelo da vida que temos de viver. Deste modo, cumprimos a nossa regra quando mantemos incessantemente diante dos olhos a imagem do Senhor Jesus, para sermos configuradas com ela; o Evangelho é o livro que nunca acabaremos de estudar. Mas não encontramos o Salvador apenas nos relatos dos testemunhos da sua vida. Ele está presente no Santíssimo Sacramento, e as horas de adoração diante do supremo Bem, a escuta atenta da voz do Deus da Eucaristia são, a um tempo, «meditação da Lei do Senhor» e «velada de oração». No entanto, atingimos o mais alto grau quando «a Lei habita no nosso coração» (Sl 39,11).

Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein) (1891-1942), carmelita, mártir, co-padroeira da Europa 
«A História e o Espírito do Carmelo»

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Joguem a palavra "gênero" no lixo!



Ontem nós publicamos aqui a íntegra da primeira intervenção feita pelo Padre Paulo Ricardo na audiência pública da tarde de ontem (10), promovida pela Comissão de Defesa dos Direitos das Mulheres, da Câmara dos Deputados. O evento tinha como objetivo discutir "o significado da palavra 'gênero'" e prestar um verdadeiro serviço às mulheres do Brasil, já que a sua causa tem sido raptada nas últimas décadas por movimentos ideológicos absolutamente alheios aos seus interesses.

Hoje nós publicamos a sequência de sua fala, dada já ao final do evento, oportunidade que o sacerdote usou para esclarecer por que a palavra "gênero", afinal de contas, não deve ser utilizada no processo de produção das leis em nosso país.

O que aconteceu ontem na Câmara dos Deputados foi uma simples audiência, promovida por uma das muitas comissões parlamentares que existem em ambas as casas do parlamento federal.

Essa comissão que atende à "defesa dos direitos das mulheres", em especial, é emblemática por despertar, desde quando foi criada, no último dia 28 de abril, a ira e a insatisfação dos movimentos feministas e da bancada socialista no Congresso.

Talvez você se pergunte: mas por que essas pessoas que tanto dizem representar a causa das mulheres rejeitaram tão prontamente essa comissão?

A resposta está nas competências que lhe foram atribuídas quando do ato de sua criação (feita pela Resolução n. 15, de 2016). Embora previsse, por exemplo:
  • a discussão "de denúncias relativas à ameaça ou à violação dos direitos das mulheres" (art. 32, XXIV, a);
  • o incentivo e a fiscalização "de programas de apoio às mulheres chefes de família monoparentais" (art. 32, XXIV, c);
  • o "monitoramento da saúde materno-infantil e neonatal, dos programas de apoio a mulheres em estado puerperal, em especial nas regiões mais carentes" (art. 32, XXIV, d); e
  • o fomento de "programas relativos à prevenção e ao combate à violência e à exploração sexual de crianças e de adolescentes do sexo feminino" (art. 32, XXIV, g),

A resolução em questão não contemplava entre as pautas da comissão recém-criada nem a palavra "gênero" nem os famigerados "direitos sexuais e reprodutivos da mulher" (que, como sabemos, não passam de sinônimo para "aborto"). O resultado? A comissão foi amplamente boicotada justamente por quem tanto diz representar a causa das mulheres. Ontem, na audiência pública, a ausência desses parlamentares e entidades civis foi sintomática, provando que seu compromisso não é com as mulheres do Brasil, mas sim com outra agenda ideológica, muito distante dos legítimos anseios femininos.

Não deixem de assistir e divulgar esse vídeo, para conscientizar as pessoas do que está acontecendo em nosso país, especialmente no Congresso Federal.