quinta-feira, 25 de agosto de 2016

ANÁLISE – Dinheiro não explica tudo, senhores

Blog examina fatores em jogo no debate mais histérico dos últimos tempos


I. Comentei em tempo real no Twitter a apuração dos votos no referendo em que os britânicos decidiram pela saída do Reino Unido da União Europeia (UE).


II. Tuitadas à parte, resumo, com base nos ensinamentos do filósofo inglês Roger Scruton, e comento abaixo os fatores que constituem as verdadeiras causas da insatisfação britânica com a UE:

1) A situação do pós-guerra 

Os britânicos defenderam com sucesso sua soberania contra o nazismo – e o país não foi ocupado.

Outras nações, que mantiveram uma espécie de neutralidade, sofreram derrotas e/ou foram ocupadas.

Isto implica uma enorme diferença na psique dos britânicos, porque eles saíram da guerra com o senso de ter cumprido um dever fundamental: o de proteger o país contra a ameaça externa.

A premissa na cabeça deles é de que, ao defender sua liberdade, defendem também a Europa e seus valores contra as tentativas de destruí-los.

Alemães e franceses, por exemplo, sobreviveram à ocupação e à animosidade entre eles e precisavam de um novo tipo de reconciliação que os britânicos dispensam.

A geração que lutou contra Hitler deixou para as gerações seguintes uma pergunta incontornável a ser feita diante da opção de entregar a soberania a qualquer corpo político transnacional composto por burocratas não eleitos:

– Valeu a pena lutar para depois simplesmente se render?

Para se ter uma ideia do peso desta luta na história britânica, este blog recomenda o livro “O fator Churchill – Como um homem fez história”, escrito pelo ex-prefeito de Londres e também jornalista de carreira, Boris Johnson, um dos líderes do movimento pela saída da UE e, por isso mesmo, tachado de tudo quanto é rótulo negativo por jornalistas que nunca leram sua obra.

Eis um trecho para facilitar:

“Um ano depois dessa decisão [de Winston Churchill] – lutar em vez de negociar [com Hitler] –, 30 mil homens, mulheres e crianças britânicos tinham perdido a vida, quase todos em mãos alemãs. Pesando na balança as alternativas – uma paz humilhante ou a matança de inocentes –, é difícil imaginar qualquer político britânico moderno tendo a coragem de seguir a mesma linha de ação de Churchill.”

No entanto, ele “estava disposto a pagar essa conta do açougueiro”, porque “tinha a vasta e quase temerária coragem moral de ver que seguir lutando seria pavoroso, mas que render-se seria ainda pior. Estava certo.”
Boris Johnson
2) Britânicos têm governo e leis diferentes em relação ao resto da Europa, que viveu a grande transformação infligida por Napoleão.

Na Grã-Bretanha, a legislação não foi em geral criada de cima, mas de baixo: da resolução dos conflitos entre pessoas comuns.

O sistema de common law britânico têm especial dificuldade de se adequar a decisões de tribunais europeus.

Quando os britânicos se veem submetidos a um regime de regulações bastante distinto daquele a que estão acostumados – no qual o Parlamento só intervém quando há algum problema adicional –, isto inevitavelmente gera sentimentos de revolta.

A sensação é de estar sendo governado por gente de fora que não os entende e não sabe como resolver seus problemas, mas apenas criar regras, que geram tantos conflitos quanto resolvem – enquanto a common law só se ocupa de resolvê-los.

Boris Johnson, agora cotado como favorito dentro do Partido Conservador para substituir David Cameron como primeiro-ministro, disse justamente o seguinte após a vitória do Brexit:

“Acredito que temos uma oportunidade gloriosa: podemos aprovar nossas leis e ajustar nossos impostos de acordo com a necessidade da economia do Reino Unido.”

3) O mais importante: britânicos falam a língua internacional e são tão imersos nela que raramente falam outra.

Têm em geral pouca habilidade para entender qualquer língua que não a sua; mas a língua que eles falam é a primeira que as demais pessoas geralmente aprendem.

Então qualquer cidadão razoavelmente educado de outro país pode se mudar para o deles e se estabelecer no território; mas esse território é pequeno – e é muito amado também, porque os britânicos lutaram por ele em duas guerras mundiais.

Esta era, de fato, a maior mensagem de propaganda naquele período: que eles tinham um lindo território que precisava ser salvo e protegido.

Então os britânicos se sentem sob cerco em função da provisão de liberdade de movimento concedida pela União Europeia, que leva meio milhão de pessoas a cada ano para dentro do pequeno país.

Como esta provisão está embutida no acordo, é quase impossível de mudar. E ela é o fator mais incômodo aos britânicos, que sentem terem perdido o controle sobre suas fronteiras.

Um vasto número de pessoas dos países que eram comunistas no Leste Europeu competem com eles por trabalho e sobretudo moradia, o que causa uma enorme crise imobiliária que os britânicos não sabem como resolver.

Isto remete à primeira razão, de defesa da soberania.

Britânicos se perguntam como pode haver soberania nacional se eles perderam o direito de controle das fronteiras: se não podemos excluir aqueles que não queremos e se temos de dar privilégios especiais àqueles que queremos.

Esses 3 fatores, amparados num senso profundo de ordenamento político que vigora há mil anos, são as verdadeiras causas da insatisfação britânica com a UE.

– 2 observações básicas:

1) A UE, em seu entusiasmo por dissolver as fronteiras, deixou-se desprotegida contra migrações de massa.

O sentimento alemão de culpa obviamente piora a situação e não há como negar a preocupação com os problemas criados pelas medidas politicamente corretas adotadas por Angela Merkel.

Esta preocupação se traduz nas seguintes questões:

a) Não há limites para as pessoas que receberemos e, se houver, somos forçados a aceitar uma transferência completa de população ao nosso país que lutou para se proteger precisamente contra as ambições de seus vizinhos?

b) Devemos ignorar fatores como conhecimento, religião, capacidade de adaptação e cultura na incorporação de novas comunidades em nosso meio?

Essas são as grandes perguntas que a UE despertou e que, até certo ponto, proibiu a população dos países-membros de discutir.

Escócia e Irlanda do Norte votaram por permanecer no bloco e políticos dos dois países já sinalizaram que pretendem trabalhar por um referendo para se separarem do Reino Unido, mas os britânicos estão dispostos a aceitar as consequências.


2) Ser governado por um tratado é colocar-se numa situação em que você não pode se adaptar à mudança.

Cada nação pode identificar seus problemas e resolvê-los ou adaptar-se a eles se puder tomar iniciativas legislativas por si própria.

Se não podem tomar decisões, como vão se adaptar? O acordo impõe que se tenha a assinatura de todos os seus membros para fazer mudanças até as mais básicas.

Mas é um acordo assinado há mais de 50 anos por pessoas que já morreram em uma situação que já desapareceu. Então se questiona:

– Por que ainda devemos ser governados por isso em vez de nossas próprias decisões serem tomadas em nossos parlamentos de acordo com o nosso próprio senso de quais são os nossos problemas?

A maioria dos britânicos considera irracional essa submissão.

Quando Lenin impôs o comunismo naquilo que se tornou a URSS, ele destruiu todas as instituições nas quais a oposição poderia se formar. Não apenas as instituições do Parlamento, mas também as instituições jurídicas, abolindo os tribunais e as profissões adjacentes.

Então não havia oposição e a URSS seguiu assim por 70 anos até a queda do muro que nunca deveria ter estado lá.

Construir um ordenamento político sem espaço para oposição ou sem a habilidade de mudar de acordo com a necessidade do momento é o maior dos erros políticos.

É o erro de criar uma ordem política que não vai reconhecer erros políticos.

É isto que a UE fez, na prática, ao vincular todos os seus procedimentos a um acordo assinado em uma situação que desapareceu.

A UE confiscou a soberania nacional e não ofereceu nada em troca por ela.

– 2 respostas a argumentos econômicos:

1) Os argumentos econômicos não tendem a uma só direção.

Uma zona de livre comércio obviamente simplifica o comércio e portando a prosperidade, mas as regulações do regime da UE ao mesmo tempo criam obstáculos contra isto, dando um limite de competitividade a países do Círculo do Pacífico e controlando as horas de jornada e condições de trabalho, o que torna nações da UE não competitivas na moderna economia global.

Esses problemas são complexos, mas as evidências históricas mostram que os economistas são muitas vezes autoridades autocentradas que erram com frequência em seus julgamentos (especialmente quando estão em jogo elementos para além de sua especialidade, o que praticamente sempre é o caso, pois o mundo real não vem separado em categorias).

A UE não ensinou o Reino Unido a fazer comércio, muito pelo contrário. E se o país souber fortalecer seu capital cultural, tende a reverter efeitos negativos imediatos da economia com muito mais consistência em longo prazo, como aconteceu com todas as nações que historicamente colocaram a conquista da inteligência e da liberdade à frente da ambição financeira.

2) O argumento não é sobre economia, de qualquer modo. É sobre identidade: quem somos nós?

Imagine persuadir pessoas a compartilhar suas casas e terras com uma família cujos modos e valores elas não podem aceitar, sob a contrapartida de que ficarão duas vezes mais ricas do que são.

A resposta poderia ser: ok, que bom que seremos duas vezes mais ricos, mas não teríamos o que realmente queremos, que é o nosso amor um pelo outro, nosso vínculo a este lugar e nossa habilidade de governarmos a nós mesmos de acordo com o nosso próprio modo de vida.

Esta resposta soa perfeitamente razoável.

Uma das grandes perguntas neste debate é: não há outros valores que não os econômicos?

No nosso mundo, quando políticos têm de responder perguntas, eles rebaixam as perguntas aos termos econômicos: será melhor se fizermos isto, será pior se fizermos aquilo, e assim por diante, mesmo quando as perguntas sobre economia vêm apenas depois de perguntas sobre integridade, soberania e liberdade.

E é disto que se trata.

III. Margaret Thatcher avisou. Ela tinha razão.

Em entrevista à revista Forbes, publicada em 26 de outubro de 1992, a ex-premiê britânica afirmou:

“As nações se sentem confortáveis em sua própria nacionalidade. O orgulho permite que você faça coisas que de outra forma poderia não ser capaz de fazer. A Europa deve se constituir de cada grupo em sua própria identidade nacional. Não tente apagar isso. Se você tentar empurrar as pessoas para um molde, você vai criar ressentimento, e é isto que você está criando agora. (…) Maastricht foi um acordo que virou totalmente na direção errada. Foi um tratado que nos levou de ser uma comunidade econômica com uma espécie de mercado comum como nosso objetivo, a tentar criar uma União Europeia com uma cidadania dessa união”.

O temor de Thatcher: “80% das decisões econômicas da Grã-Bretanha será feita em Bruxelas.”

“O que é que há com essas pessoas que gostam das liberdades da democracia, que apreciam que os representantes eleitos prestem contas perante o povo? Por que eles querem substituir isto por burocracia? Qual é o problema, o que aconteceu com eles? Vou lhe dizer que a Comissão [Europeia] ama seus poderes. Poder por uma questão de poder. Não foi por isso que lutamos. Nós lutamos pela democracia, liberdade e Justiça. (…) Nós acabamos de reeleger nosso parlamento. Para quê? Apenas para ser um talk show?”

Sistemas internacionais centralizados, como moedas nacionais, estavam fadadas ao fracasso segundo Thatcher porque “estamos todos em diferentes níveis de desenvolvimento das nossas economias”. Ela alertou para “enormes subsídios extras do resto de nós para eles ou movimentos maciços de imigração de seus países para o nosso. Ambos causariam ressentimento e não um desenvolvimento harmonioso. Devemos cada um de nós se orgulhar de ser países separados que cooperam juntos”.

De fato, os europeus se livraram de moedas nacionais e as substituíram pelo euro, mas as economias combinadas eram totalmente distintas.

Thatcher ensinava ainda:

“A forma regular mais detalhada de cooperação internacional é o comércio, o comércio internacional. Ele acontece a cada hora do dia. As grandes empresas em países pequenos que vendem para pequenas empresas em grandes países. Não importa o tamanho do seu país. Em livre comércio, você obtém a livre circulação com os melhores produtos, o melhor valor para o consumidor. E é isso que todos nós devemos levar adiante. Não blocos de comércio que excluem as pessoas.”

Sendo ou não bravata da Dama de Ferro, em tudo isto que previu, em tudo que falou em 1992 que daria errado com a permanência no bloco, ela estava coberta de razão, embora o atual CEO esquerdista da própria Forbes não tenha aprendido bulhufas:


As elites políticas e econômicas da UE, como o resto do establishment bancado e pautado por toda parte pelo investidor bilionário de esquerda George Soros, não estão interessadas no povo britânico, mas, sim, em manter seu poder e, quem sabe, aumentá-lo, rotulando de populistas de direita quem lhes faça oposição e de idiotas quem os siga.

Felizmente, dessa vez, os britânicos ouviram Thatcher e escaparam do engodo.

Agora, como antecipei em abril, só falta o Brasil se livrar de Mercosul e Unasul:


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