segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Seminarista resgata Eucaristia de iminente profanação do Estado Islâmico


Bombas caiam e o som da explosão enchia os corações do povo de choque e medo. Ao som de choro e atividade frenética, as pessoas arrumavam os pertences que conseguiam carregar para fugir à noite.

Em meio a tudo isso estava Martin Baani, um seminarista de 24 anos de idade. Ele começava a perceber que esta seria a última vez em Karamlesh.

Por 1.800 anos, o cristianismo teve um lar nos corações e nas mentes das pessoas desta aldeia, cheia de resquícios da antiguidade. Mas agora estava prestes a ser dominada pelo Estado Islâmico que avança em sua direção.

O celular de Martin toca: um amigo que gagueja a notícia de que a cidade vizinha de Telkaif foi dominada pelo "Da'ash" - o nome árabe para Estado Islâmico. Karamlesh certamente será a próxima.

Martin corre para fora da casa de sua tia, onde está hospedado, e segue para a igreja de Santo Addai, próxima dali. Ele leva o Santíssimo, um pacote de papéis oficiais e caminha para fora da igreja. Do lado de fora um carro o espera - o padre de sua paróquia, o padre Thabet, e três outros sacerdotes.
Ele entra e o carro acelera. Eles deixam Karamlesh e os últimos vestígios da presença cristã da aldeia vão com eles.

Falando com Martin na calma do Seminário de São Pedro, em Ankawa, é difícil imaginar que ele descreve algo além de um sonho ruim. Mas não há nada de sonhador na expressão de Martin. "Até o último minuto, o Pashmerga [as forças armadas curdas que protegem as aldeias] estavam nos dizendo que era seguro”.

“Mas depois soubemos que eles estavam montando grandes armas no monte de Santa Bárbara [na borda da aldeia] e compreendemos então que a situação era muito perigosa."

Fazendo um balanço daquela terrível noite de 06 de agosto, a confiança de Martin é reforçada pela presença de outros 27 seminaristas em São Pedro, muitos deles com suas próprias histórias de fuga das garras dos militantes islâmicos.

Martin e seus colegas de sacerdócio sabem que o futuro é sombrio no que diz respeito ao cristianismo no Iraque. A comunidade de 1,5 milhão de cristãos antes de 2003 caiu para menos de 300 mil e, daqueles que permanecem, mais de um terço estão foragidos. Muitos, se não a maioria, buscam uma nova vida em um novo país.

Martin, no entanto, não é um deles. "Eu poderia facilmente ir", ele explica calmamente. "Minha família vive agora na Califórnia. Já me foi dado um visto para ir para os Estados Unidos pra visitá-los”.

“Mas eu quero ficar. Eu não quero fugir do problema".
Martin já fez a escolha que marca os sacerdotes que decidiram permanecer no Iraque: sua vocação é para servir o povo, venha o que vier.

"Temos que lutar por nossos direitos, não devemos ter medo", explica. Descrevendo em detalhes o trabalho de socorro de emergência, que tem ocupado muito de seu tempo, é fácil ver que ele sente que seu lugar é lá com as pessoas.

Martin já é um diácono. Agora, em seu último ano de teologia, a ordenação ao sacerdócio é - se Deus quiser – daqui a alguns meses.

"Agradeço por suas orações", diz Martin, ao se despedir de mim. "Contamos com o vosso apoio."

John Pontifex é jornalista principal da Ajuda à Igreja que Sofre, uma fundação pontifícia de caridade internacional que fica aos cuidados da Santa sé e que provê assistência à Igreja Católica que está em dificuldades e sofre perseguição em mais de 140 países.

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